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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sutra do Lótus - Resumo capítulo por capítulo - Cap 17 ao 21


Capítulo 17 – Exposição do Mérito Derivado da Aprovação

Buda reitera o capítulo anterior sobre os méritos acumulados por aquele que ouve e prega o Sutra do Lótus. Conta uma parábola de um rei muito generoso que vivia para beneficiar todos os seres de seu reino e que, portanto, obtinha muitos méritos. Entretanto, compara este monarca com alguém que guardou um único verso do Sutra do Lótus, afirmando que este é superior àquele. Quem acata o Sutra do Lótus é beneficiado com a Sabedoria e Conduta irrepreensível; mais uma vez o tom dessa mensagem exprime a ideia de se “incorporar” o Sutra, ao invés de considerar as palavras do Buda como meras regras que são impostas dogmaticamente do exterior para o interior do homem.

Capítulo 18 – Benefícios Obtidos pelo Pregador do Dharma

O capítulo continua a enumerar os benefícios adquiridos pelo pregador do Sutra. Fala sobre uma sensibilidade maior dos órgãos dos sentidos, adquirido pelo Bodhisattva através de sua disciplina. A visão torna-se capaz de perceber melhor as conexões karmicas (relação entre causa e efeito). A audição é aperfeiçoada, aumentando-se o poder de compreensão, assim, como o olfato que começa a distinguir melhor o perfume da podridão. Ao mesmo tempo em que o paladar também se ajusta, transformando sabores amargos em doces, a sensibilidade do tato faz com que o Bodhisattva sinta seu próprio corpo como um corpo de um Tathagata. Enfim, a mente também se beneficia, mantém-se melhor concentrada, aprende a utilizar-se dos Meios hábeis para propagar a Doutrina e interpreta o Dharma com maior facilidade e clareza.

Capítulo 19 – Sadaparibhuta, o sempre menosprezado

Houve, certa vez, em meio a uma época de degeneração do Dharma, um monge Bodhisattva chamado Sadaparibhuta, “Sempre Menosprezado”, que aderiu ao ensinamento Mahayana e expressava que tanto monges, monjas, leigos e leigas já estavam, mesmo sem o saber, praticando a carreira do Bodhisattva e que todos alcançariam a Perfeita Iluminação, que é a meta do Mahayana. Os Budistas que pertenciam ao Hinayana se encolerizavam com ele e o desprezavam, pois suas crenças eram diferentes. Porém, ao final de sua vida, este monge ouve a pregação do Lótus, adquire a pureza dos sentidos (capítulo 18) fazendo com que os Budistas que o desprezavam se convertessem ao Mahayana e adentrassem na Grande Assembleia dos Bodhisattvas. Este monge era o próprio Shakyamuni em um renascimento anterior, que alcançou a Iluminação graças ao entendimento do Sutra do Lótus.

Capítulo 20 – A Realização do Poder Extraordinário do Tathagata

Parte 1 – O Voto dos Bodhisattvas

Aqueles Bodhisattvas que emergiram das concavidades da Terra (capítulo 14) comprometem-se em memorizar e ensinar o Dharma para o bem dos seres. Da mesma maneira, outros na Assembleia fazem este voto, comportamento que recebe a aprovação do Buda.

Parte 2 – O milagre da Língua

Então, o Bhagavant Shakyamuni e Prabhūtaratna, assentados no Trono no meio da Stupa descrita no capítulo 11, abriram suas bocas e deixaram sair suas línguas e por suas línguas incontáveis Bodhisattvas surgiram, todos dourados e dotados das Trinta e Duas marcas dos Grandes Homens. Após recolherem as línguas, os Bhagavants fizeram sons pela garganta e estalaram os dedos, fazendo com que todos os Mundo de Budas tremessem. Com o tremor, todas as Assembleias de  todos os mundos prestaram homenagens aos Tathagatas e puderam enxergar com clareza o mundo Saha. A língua nessa passagem deve ser entendida como um símbolo que representa a grande eloquência dos Budas que lhes permite fazer chegar a Doutrina a todos os seres. Assim como a língua se estende por todos os universos, assim também se estende o Dharma.

Parte 3 – Exaltação ao Sutra do Lótus

Esta parte descreve homenagens que os Bhagavants e o Sutra do Lótus recebem dos seres presentes diante da Stupa. Shakyamuni repete mais uma vez os benefícios de se ouvir e ensinar o Sutra do Lótus, complementando que em qualquer lugar onde este Sutra for ensinado, um monumento em homenagem e honra ao Tathagata deve ser construído; este monumento deve ser considerado como o próprio Trono da Iluminação de todos os Budas, como o local onde a Roda da Lei foi colocada em movimento por todos os Tathagatas.

Capítulo 21 – As Dharanis

Neste capítulo Dharanis e Mantras são dados por Bhaishajyaraja, Pradanashura e pelos reis Vaishravana e Virudhaka a fim de se levar proteção aos Pregadores do Dharma. Estes Dharanis e Mantras não são fórmulas mágicas, mas frases que quando repetidas e meditadas mantém a mente do pregador resoluta, firme; facilitam insights e fortalecem os discípulos contra os demônios, mantendo-os na vivência do Dharma. Aqueles que atacam os pregadores do Sutra são punidos com destinos infelizes, não por alguma ação mística, mas por consequência do próprio karma negativo que produziram.

Leia os capítulos anteriores

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Não procure o Budismo...


Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.

Se você quer curar seu corpo físico, não procure o Budismo. O Budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o Budismo. Você se decepcionará, pois ele vai lhe falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o Budismo. Para o Budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o Budismo. Para o Budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o Budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o Budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

Se você quer a proteção divina, não procure o Budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

Se você quer um caminho para Deus, não procure o Budismo. Ele o lançará no vazio.

Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o Budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o Budismo. Ele aumentará suas dúvidas.

Se você quer uma crença cega, não procure o Budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.

Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o Budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o Budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.

Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o Budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.

Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o Budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.

Se você quer conhecer o futuro, não procure o Budismo. Ele só vai lhe mandar prestar atenção a seus pés, enquanto você anda.

Se você quer ouvir palavras bonitas, não procure o Budismo. Ele só tem o silêncio a lhe oferecer.

Se você quer ser sério e austero, não procure o Budismo. Ele vai ensiná-lo a brincar e a se divertir.

Se você quer brincar e se divertir, não procure o Budismo. Ele o ensinará a ser sério e austero.

Se você quer viver, não procure o Budismo, pois ele o ensinará a morrer.

Reverenda Yvonette Silva Gonçalves

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Sutra do Lótus - Resumo capítulo por capítulo - Cap 15 e 16

Capítulo 15 – Duração da Vida do Tathagata

Parte 1 – Resposta às dúvidas do Capítulo Anterior

Nesse capítulo Buda responde às perguntas que lhe foram feitas no capítulo 14, com relação a como é possível que nos anos em que sua pregação durou, uns quarenta anos, tenha podido converter e instruir uma quantidade praticamente infinita de Bodhisattvas. Shakyamuni responde afirmando que Ele alcançou a Iluminação há muitos milhões de Períodos Cósmicos e que a duração de Sua vida não tem limites. Obviamente Shakyamuni não está falando do seu Corpo Manifesto, mas sim da própria Natureza de Buda que o permeia, a Verdade, que sendo absoluta é imutável, ou seja, a mesma desde sempre. Buda diz que ao mesmo tempo em que ingressou, também não ingressou no Nirvana, referindo-se ao Corpo da Manifestação (Nirmakaya) e ao Dharmakāya, respectivamente. Buda deseja que os seres não se tornem dependentes dele como homem, mas sim que despertem a Mente Iluminada e tenham o “Tathagata dentro de si”. Para ilustrar estas explicações, O Iluminado recorre à parábola do médico que utilizando-se de um estratagema, liberou todos os seus filhos da enfermidade.

Parte 2 – Parábola do Médico que liberou todos os seus filhos da enfermidade

Um médico e pai notando que seus muitos filhos estavam doentes e com suas mentes transtornadas devido ao uso de uma substância tóxica, preparou-lhes um remédio. Contudo, vários enfermos não queriam se medicar, crendo que a simples presença do pai era suficiente para que ficassem sãos. Em face a este problema, o médico bolou uma estratégia, dizendo que estava pra morrer, mas que o remédio continuaria com eles e que poderiam bebê-lo se assim desejassem.
Então, o pai de família viajou para longe, a fim de simular sua morte e os filhos, movidos de tristeza e sensação de desproteção, enfim, beberam o antídoto e ficaram saudáveis. O médico, sabendo que seu rebento estava livre da doença, reapareceu.
Da mesma maneira age o Tathagata, pelos Meios Hábeis dá a entender que já se Nirvanizou ou logo  vai se extinguir e que não estará sempre presente para nos ajudar, quanto que na verdade, a duração de sua vida é infinita. Ou seja, para evitar que os seres caiam na desídia, Buda não revela que está sempre ativo no mundo.

Parte 3 – O Mundo de Buda

As pessoas não conseguem ver o Mundo de Buda como ele o é, julgam-no como um “lugar” onde há apenas dor. Contudo, este Mundo é maravilhoso e esplêndido, mesmo com estas supostas “imperfeições”. Os seres não percebem esta realidade por estarem submetidos à ignorância e à ilusão. Somente com o cultivo do bom karma, os seres começam a perceber a realidade em sua essência e conseguem enxergar o Tathagata. O Mundo é perfeito não no sentido de uma Justiça Universal que beneficie o homem, mas em relação à forma com que os fenômenos ocorrem visando sua auto manutenção e propiciando a vida (o sofrimento como sendo primordial para a existência).

Essa foi a tradução do Sutra que usei nesse resumo

Capítulo 16 – A Exposição dos Méritos

E por causa da Pregação sobre a Duração da Vida do Tathagata, os Bodhisattvas ali presentes ingressaram no Arya Marga [1], se beneficiaram com dharanis e obtiveram uma forte eloquência, colocando em movimento a Roda da Lei.

[1] Arya Marga, o Nobre Caminho, composto por sua vez de quatro degraus:
1º Vencedor da Corrente (corrente no sentido de fluxo): não possui mais a ideia de um eu permanente, percebeu que os ritos, regras e rituais são insubstanciais e não se apega mais à dúvida meramente especulativa.
2º Aquele que renasce apenas mais uma vez: é aquele que renasce no mundo humano e não retorna mais aos mundos inferiores. Se ele fraquejar, sua oscilação é mínima e rapidamente ele retorna ao mundo humano. Esse “apenas uma vez” é simbólico, quer dizer que ele não está mais apegado à convulsão dos mundos inferiores. Sua consciência permanece somente em estados elevados e ele não se ilude mais, nem sofre com os três tipos de desejo e nem ódio.
3º Aquele que não mais retorna: Após atingir o mundo humano ele deixa de oscilar definitivamente, sem abandonar esse estado até que atinja o nível superior.
4º Estado de Arhat: o Arhat é um Iluminado. A diferença entre um Buda e um Arhat, de acordo com o Budismo Mahayana, é que um Buda adentrou à Grande Extinção, o Parinirvana.

Mesmo que o Bodhisattva pratique as Cinco Perfeições: Doação, Disciplina Moral, Paciência, Energia e Meditação; ele não terá a mesma quantidade de méritos que tem aquele que assimilou o ensinamento da “Duração da Vida da Tathagata”. Para os homens que, dotados de firme resolução, e conservando em suas memórias a Palavra Sagrada, compreenderem a Linguagem Intencional (os Meios Hábeis), para eles não existirá dúvida, estarão sempre aos pés do Buda no Pico do Abutre, ouvindo o Dharma da “própria boca do Bhagavant”, serão venerados e homenageados por aqueles que estiverem desejosos pela Doutrina e visualizarão o Mundo Saha adornado com ouro e pedras preciosas.
Isso não significa de modo algum que aquele que “tem fé no Sutra do Lótus” esteja isento de ter que praticar as qualidades descritas pelas Cinco Perfeições. O texto está dizendo que quando o Ensinamento encontra-se assimilado intelectualmente, há uma mudança de paradigma na forma com que a realidade é percebida, as Perfeições continuam sendo manifestas, porém não são executadas como em outrora (como pelo Budismo Hinayana ou Mahayana menor), mas como decorrência de uma experiência Espiritual transcendente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sutra do Lótus - Resumo capítulo por capítulo - Cap 13 e 14

Capítulo 13 – A Existência Feliz


Parte 1 – O Proceder do Bodhisattva

A existência do Bodhisattva deve ser baseada na boa conduta, satisfazendo, para isso, certas condições: generosidade, autocontrole, não ter medo ou temor e estar despojado da inveja; enxergar a realidade como ela é e eliminar suas dúvidas em relação à natureza dos dharmas (fenômenos).
O Bodhisattva não deve se misturar com a politicagem de ministros e reis, nem reverenciar os adeptos de outras religiões, nem os devotados à poesia, nem os supersticiosos, nem os materialistas, não deve se misturar com o populacho, nem com aqueles que exaltam a violência, nem com os que comercializam ou comem carne, nem com caçadores, nem com os que frequentam a vida noturna ou gostam de jogos de azar; unicamente lhes prega de tempos em tempos o Dharma quando se aproximam dele, e lhes prega sem se apegar a eles. O Bodhisattva não deve reverenciar monges e leigos que não acreditam no Veículo Único, não deve ficar de engraçamento com as mulheres, nem ensinar aos promíscuos. Não deve fazer fofocas e ficar “mostrando os dentes” por qualquer motivo. Além disso, deve cultivar uma vida contemplativa e solitária e perceber que a realidade é Vazia e inexprimível.
O Bodhisattva deve pregar o Dharma da seguinte maneira: com humildade e vigor; sem entrar em disputas com outros monges e expressando-se de um jeito amável, visando beneficiar aos que venham até ele e estejam desejosos pela Doutrina.

Parte 2 – A Parábola do Rei Generoso

Havia um rei poderoso que conquistou por sua força vários reinos. Este rei vendo a fidelidade de seus soldados nas guerras resolveu os presentear com ouro, pedras preciosas, terrenos, casas, etc. Porém, a princípio não lhes deu a coroa, porque estes ficariam muito confusos, naquele momento, com este gesto.
Da mesma maneira o Tathagata, ao ver seus discípulos lutando bravamente contra Mara, primeiramente lhes dá os Veículos Inferiores e se salvaguarda, a princípio, de oferecer-lhes o Sutra do Lótus, que tem em sua essência o Veículo Único.
Contudo, assim como aquele rei, impressionado pela grande façanha viril de seus soldados, lhes deu depois até mesmo a coroa, Buda concede aos seus Discípulos (após um período “probatório” e de adaptação), a última e definitiva Exposição da Doutrina, que é semelhante a uma coroa, brindando a todos com a Onisciência.


Capítulo 14 – Surgimento de Bodhisattvas das Concavidades da Terra

Parte 1 – Bodhisattvas do Mundo Saha

Eis, então, que no meio da Assembleia surgem incontáveis Bodhisattvas Mahāsattvas de outros mundos se propondo a pregar o Sutra do Lótus no Universo Saha. Porém, Buda os repreende dizendo que dentro do Universo Saha já há uma quantidade muito maior de Bodhisattvas que podem realizar esta tarefa sem necessidade de ajuda alguma.
E ditas estas palavras pelo Bhagavant, o mundo Saha em todas as partes se fendeu e do interior daquelas rachaduras surgiram milhões de Bodhisattvas, mestres do Dharma, com corpos dourados e dotados das Trinta e Duas marcas virtuosas, que emergidos das concavidades da Terra prestaram homenagens por um longo tempo aos Tathagatas Prabhūtaratna e Shakyamuni.
E dentre aquela multidão de Bodhisattvas, encontravam-se quatro que estavam diante de todos, a saber: Vishishtacharitra (Excelente Boa Conduta), Anantacharitra (Infinita Boa Conduta), Vishuddhacharitra (Imaculada Boa Conduta) e Supratishthitacharitra (Completamente Firme Boa Conduta).
Estes quatro Bodhisattvas Mahāsattvas dirigem ao Bhagavant as seguintes perguntas:

“Goza o Bhagavant de boa saúde? Está livre de qualquer dor? Sente-se feliz? Mostram-se os seres em boa disposição, dóceis na instrução, fáceis de conduzir, dispostos a se deixar purificar? Não provoquem cansaço ao Bhagavant” (página 391 – K301).

Buda responde afirmativamente a todas as perguntas, dizendo que os seres que confiam em Sua Palavra se prepararam bem, sob a direção de Perfeitamente Iluminados do Passado. Estes seres são os Shravakas e os Pratyekabuddhas que agora encontram-se prontos para ouvir a Verdade Suprema.


Parte 2 – Dúvidas de Maitreya e outros Bodhisattvas

Maitreya e os demais presentes na Assembleia perguntam a Buda de onde vieram aqueles Bodhisattvas de tão excelente qualidade.
Shakyamuni responde que estes Bodhisattvas surgiram porque Ele os estimulou e os apresentou ao Caminho. Complementa dizendo que estes fieis, que brotaram das concavidades da Terra, são grandes homens, dedicados, que não gozam com a vida em sociedade; são independentes, ou seja, não apegados à vida mundana e também praticam a perseverança.
Maitreya se admira pela quantidade de Bodhisattvas alcançados por Shakyamuni em um curto intervalo de tempo, ficando em dúvida sobre como Buda realizou tamanha proeza. Porém, este questionamento só é respondido no próximo capítulo.


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Introdução aos Ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda (5) - QUARTA NOBRE VERDADE

QUARTA NOBRE VERDADE

Caminho Óctuplo ou Caminho do Meio (O caminho que leva à cessação do sofrimento)

A Quarta Nobre Verdade é a que indica o Caminho que leva à extinção do sofrimento, conseguido pela trilha da Senda Óctupla, também conhecida como "Caminho do Meio", porque evita os dois extremos: primeiro, o da auto-indulgência, conforto e prazer físico que traz apego às paixões (é próprio dos indivíduos que procuram a feli­cidade através dos prazeres dos sentidos); segundo, o da auto-tortura, auto-mortificação, ou sofrimento físico que traz perturbação à mente: é uma psicose, mediante diferentes formas de ascetismo. Exemplo, o uso do cilício pelos penitentes cristãos. Nem o ascetismo, nem o prazer permitem realizar o Caminho. É preciso aban­donar esses dois extremos e seguir o Caminho do Meio.


Certa ocasião, Sidarta estava na Montanha dos Abutres junto à cidade de Rajagaha. Em um bosque próximo, um monge de nome Sona estava entregue à meditação; aplicava-se bastante, mas, não realizando a Iluminação e sentindo-se desnorteado, veio ter com Ele e per­guntou: 

- "Mestre, estou fazendo exercícios severíssimos. Dentre todos os discípulos, não há quem me iguale em zelo. Por que, então, não consigo realizar a Iluminação? Talvez seja melhor que eu volte para casa. Tenho bens que me permitem levar uma vida feliz. Não é melhor que eu abandone este caminho e volte ao mundo?
- Sona, antes de seres monge, eras um exímio harpista, não?
- Bem, eu tinha certa habilidade com esse instrumento.
- Então responde: quando as cordas da harpa estão muito tensas, obtém-se bom som?
- Não, Mestre.
- Quando as cordas estão frouxas, obtém-se bom som? 
- Também não, Mestre.
- Então, como fazer para obter bom som?
- As cordas não devem estar nem tensas, nem frouxas demais.
- O mesmo se dá com a prática do Dharma, Sona. A aplicação dema­siada traz inquietação à mente, e a despreocupação traz negligência. É necessário seguir o Caminho Médio entre esses dois extremos.
Desde então, Sona passou a exercitar-se segundo tais instruções, rea­lizando, por fim, a Iluminação."

Sidarta, tendo experimentado esses dois extremos e reco­nhecendo a inutilidade deles, descobriu por experiência própria o Ca­minho do Meio que condensa o espírito da Filosofia Ético-Moral budista, conhecido como Caminho Óctuplo, e consiste dos seguintes princípios: 

Conduta Ética - Moralidade
1. Palavra Correta 
2. Ação Correta
3. Meio de Vida Correto

Disciplina Mental - Meditação
4. Esforço Correto 
5. Plena Atenção Correta
6. Concentração Correta

Introspecção - Sabedoria
7. Pensamento Correto 
8. Correta Compreensão 

Estes oito fatores estão entrelaçados entre si e cada um contribui para o aparecimento e desenvolvimento dos outros. São estas as poderosas forças morais e mentais que, reunidas, nos ajudam a nos libertar do desejo. A finalidade destes oito fatores é facilitar o aper­feiçoamento dos três elementos essenciais no treinamento da disciplina budista, que são: 

I. Conduta ética: Moralidade (Sila)
II. Disciplina mental: Concentração e Meditação (Samadhi) 
III. Introspecção: Sabedoria (Panna)

I. Conduta ética: Moralidade (Sila)

É baseada na ampla concepção de amor universal e compaixão para com todos os seres; não somente os humanos, mas todos os seres vivos. 

Segundo o budismo, para que um ser humano seja o menos imperfeito possível, deve cultivar igualmente duas qualidades: compaixão e sabedoria, que devem permanecer inseparáveis. A compaixão inclui o amor no sen­tido universal (não condicionado a símbolos, conceitos etc.), a cari­dade, a tolerância, assim como todas as nobres qualidades do coração (lado afetivo); ao passo que a sabedoria representa as qualidades da mente. 

Se um indivíduo desenvolve somente o seu lado afetivo e descuida o lado mental, será um tolo de bom coração; se, ao con­trário, este mesmo indivíduo desenvolve seu lado mental e descuida o lado afetivo, é provável que se torne um intelectual insensível, frio, sem nenhum sentimento para com os demais. Desta forma, estes dois homens nunca alcançarão a menor imperfeição. A conduta ética, baseada no amor e na compaixão, consta de três fatores do Caminho Óctuplo: 1.°) Palavra Correta, 2.°) Ação Correta, 3.°) Meio de Vida Correto.

1º) Palavra correta, ou linguagem pura, é a que traduz hones­tidade, verdade, paz, carinho; que é cortês, agradável, benéfica, útil, moderada e sensível. Significa abstenção das mentiras, difamação, calúnia e de todas as palavras capazes de provocar ódio, inimizade, desunião e desarmonia entre indivíduos, ou grupos sociais. 

Abster-se de linguagem rude, brutal, descortês, ofensiva ou inju­riosa; enfim, abster-se de conversações sem sentido, fúteis e vãs; abster-se de linguagem errônea e perniciosa. Deve-se dizer a verdade em ocasião oportuna, empregando palavras amigáveis, benévolas, agra­dáveis, doces, significativas e úteis. Nunca falar negligentemente, mas sempre com conveniência de tempo e de lugar. Quando não se tem nada de útil a dizer, deve-se "guardar o nobre silêncio".

Para desenvolver a palavra correta, isto é, evitar as errôneas ma­neiras de falar, não basta apenas boa intenção, pois esta falha é cons­tante; é indispensável haver uma cultura mental que, desenvolvendo a concentração, leve o indivíduo ao autocontrole e à sabedoria interior. A palavra correta é dirigida pelo pensamento e ação corretos. "Melhor que mil palavras sem sentido, é uma só palavra sensata, capaz de trazer paz àquele que a ouve."

2º) Ação correta, ou conduta pura, tem por fim cultivar uma conduta moral honrada e pacífica e ajudar os outros na mesma finali­dade, a qual nos exorta, também, a evitar destruir vidas, fazer uso de tóxicos que perturbam a mente, ou fazem perder a consciência; roubar ou explorar, assim como o mau uso das relações sexuais.
"Aquele que destrói uma existência, que mente, que rouba, que cobiça o cônjuge alheio e se entrega às bebidas alcoólicas ou tóxicos em geral, este, já neste mundo, está destruído." A ação correta é dirigida pelo pensamento correto.

3º) Meio de vida correto, ou meios de existência puros, conduzem o indivíduo à aquisição do bem-estar material e espiritual próprios, ajudando os demais na mesma finalidade. Significa que se deverá evitar ganhar a vida em uma profissão ou ocupação que possa ser nociva a outros seres vivos, como comércio de armas ou instru­mentos mortíferos, caça, pesca e matadouros, bebidas alcoólicas, ve­nenos, entorpecentes, jogos que possam causar preocupações etc. Fazer profissão de poderes parapsíquicos, na cura de pacientes, previsões sobre o futuro baseadas em cartomancia, astrologia etc. 

O meio de vida correto é dirigido pelo pensamento correto. Quaisquer sistemas de moral e ética estão enquadrados nesses três aspectos: palavra correta, ação correta e meio de vida correto. Sem esses três fatores, nenhum desenvolvimento espiritual será possível.



II. Disciplina mental: Meditação (Samadhi)

Compreende os três seguintes fatores do Caminho Óctuplo: Es­forço Correto, Plena Atenção ou Vigilância Correta e Concentração Correta, por meio dos quais se alcança o desenvolvimento mental e a visão interior (intuitiva).

4º) Esforço correto, ou aplicação pura, é a arma que pos­suímos para enfrentar corretamente a luta contra o mal; consta do seguinte:

a) Esforço de evitar e destruir os pensamentos negativos já existentes.
b) Enérgica vontade de impedir ou superar o aparecimento de pensa­mentos maus e nocivos.
c) Fazer surgir pensamentos bons e sadios ainda não existentes.
d) Manter, cultivar e desenvolver, até à mínima imperfeição possível, os pensamentos bons e sadios já existentes.

5º) Plena atenção correta, ou Vigilância Correta, consiste numa atenção vigilante com tomada de consciência nas atividades do corpo, nas sensações, nos diferentes estados da mente (nas idéias, pensamentos, etc.), e na investigação da Doutrina - Dharma - ( Verdade sobre o nosso ser).

A Plena Atenção mental correta é um dos principais fatores do Caminho Óctuplo, pois é necessário que esteja presente para o desen­volvimento dos demais fatores. Desta maneira, para desenvolver a palavra correta, a ação correta e o meio de vida correto é necessária a Plena Atenção mental para que no momento exato não nos dei­xemos levar pelas errôneas maneiras de falar, pelas ações demeritórias, ou pelo incorreto meio de vida.

A Plena Atenção mental correta é chamada "Guarda da mente"; é o vigia da mente, que está sempre observando, porque a mente, por si só, vaga a todo instante.

No treinamento da meditação, a prática da concentração na res­piração, embora existam outras técnicas, é um dos exercícios mais divulgados em relação ao corpo, contribuindo para o desenvolvimento mental. Pela meditação realiza-se auto-disciplina, auto-controle e auto­-conhecimento - pureza e Iluminação (Sabedoria).
Quanto às sensações, é necessário ter clara consciência de todas as suas formas: agradáveis, desagradáveis e indiferentes; de como surgem, se desenvolvem e desaparecem.

No que se refere aos diferentes estados da mente, deve-se estar atento e analisar todos os movimentos mentais; se neles estão pre­sentes o ódio, ou não, a cobiça, ou não; se eles se deixam levar por uma ilusão, ou não, se a mente está distraída, ou atenta, e estar cons­ciente de como surgem e desaparecem. Enfim, quanto às ideias, pen­samentos e concepções das coisas, devemos distinguir sua natureza, saber como surgem, se desenvolvem e desaparecem, como são supri­midos ou destruídos, e assim sucessivamente.

6º) Concentração correta é a condição indispensável para todo e qualquer desenvolvimento espiritual. Qualquer religião ou prá­tica, sem concentração, torna-se frágil e, na oração, as palavras tornam­-se inúteis. Quanto mais concentração nas palavras de uma oração, mais poderosa ela se torna. A oração feita desta forma é um tipo de meditação. O poder dos raios solares dispersos em todas as direções se torna maior quando concentrados em um ponto por uma lente. Da mesma maneira nossa mente está constantemente dispersa; quando concentrada em um objetivo único, ela se torna poderosa e com isso desenvolve a sabedoria interior. 

A Concentração Correta é o terceiro e último fator da disciplina mental - samadhi -, estado em que o indivíduo é levado à abstração de si mesmo pelo treino da meditação nas quatro etapas de dhyana. 
Na primeira etapa de dhyana são afastados os desejos apaixonados, pensamentos impuros como sensualidade, má vontade, confusão, agitação e dúvida cética. Mas estão presentes os sentimentos de alegria, de felicidade, assim como certa atividade mental.

Na segunda etapa, desaparecem todas as atividades mentais e desenvolvem-se a tranqüilidade e a fixação unificadora da mente; no entanto os sentimentos de alegria e felicidade ainda estão conservados.
Na terceira etapa, o sentimento de alegria, que é uma sensação ativa, desaparece também, persistindo ainda uma disposição de felici­dade com equanimidade consciente.

Finalmente, na quarta etapa de dhyana, toda sensação, mesmo de felicidade ou infelicidade, de alegria ou pesar, desaparece, restando somente a equanimidade e a lucidez mental.


Recolhimento ou Concentração

- Nagasena, qual é a característica da concentração? 
- A supremacia. Os estados salutares da mente subordinam-se à con­centração. Esta é o cume do qual esses estados da mente são as encostas, as ladeiras e o sopé.
- Dá uma comparação.
- Quando um monarca mobiliza o seu exército para a guerra, os ele­fantes, os cavalos e a infantaria estão sob seu comando, obedecem às suas ordens. Dá-se o mesmo com a concentração.
Recomendou o Bem-Aventurado: "Religiosos e leigos, cultivai a concen­tração. O homem na concentração vê a realidade." 

Desta forma a mente fica disciplinada e desenvolvida por meio do Esforço Correto, Atenção Correta e Concentração Correta.

III. Introspecção: Sabedoria 

Consta dos dois fatores restantes da Nobre Senda Óctupla, o Pensamento Correto e a Correta Compreensão.

7º) Pensamento correto, ou pensamento puro, é o correto pensar com sabedoria, com equanimidade e contemplação. É o pen­samento dirigido no sentido da renúncia, do desapego, da compaixão, do amor universal, da não-violência, estendendo-se a todos os seres vivos. Desenvolvendo estas qualidades, eliminamos todo pensamento egoísta de apego, má vontade, ódio, violência ou crueldade, seja de ordem individual, social ou política, que é fruto da ignorância. O pensamento correto não aparece quando existem pensamentos ligados aos apegos dos sentidos.

"Tudo o que somos é resultado do que temos pensado (criação mental). Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento acompanha-o tão perto como a roda segue a pata do boi que puxa o carro."

"Se o homem fala ou age com a mente pura, a felicidade o acompanha como sua sombra inseparável."

Donde se conclui que do nosso pensamento só colhemos bons e maus frutos. 
Os pensamentos corretos são interdependentes da compreensão correta. No seu discurso sobre o Amor Universal, Sidarta nos dá um ensinamento que auxilia a vencer os pensamentos negativos: utilizá-Ios como tema de meditação.

8º) Correta Compreensão é a compreensão que, pela contem­plação pura, permite reconhecer e penetrar na realidade da existência da insatisfação universal, criada pela desarmonia entre os seres e o mundo exterior. 
No budismo há duas formas de compreensão: a primeira forma de compreensão é a do conhecimento, memória acumulada, captação intelectual de um assunto, segundo certos dados etc. É designada pelo nome de "conhecer segundo...", que é o conheci­mento pelos conceitos; não é muito profunda. A compreensão verda­deiramente profunda denomina-se "penetração". Con­siste em ver uma coisa em sua verdadeira natureza, sem nome ou rótulo. Esta penetração só é possível quando a mente está livre de toda impureza e quando completamente desenvolvida na prática da meditação.

A compreensão pela visão interior é a mais alta sabedoria que o homem pode atingir, e somente através dela poderá realizar a Rea­lidade Última, que consiste na compreensão das coisas tais como são, sem condicionamentos. As Quatro Nobres Verdades as explicam cla­ramente.

Na Primeira Nobre Verdade, a natureza da vida, seu sofrimento, suas tristezas e alegrias, sua insatisfatoriedade, sua impermanência e sua insubstancialidade; devemos compreendê-la como fato claro e com­pleto. 

Quanto à Segunda Nobre Verdade, origem de dukkha, que é o desejo acompanhado de todas as paixões e impurezas, a simples compreensão não é suficiente; torna-se necessário afastar, eliminar, destruir a origem desse desejo.

Quanto à Terceira Nobre Verdade, que é a cessação de dukkha, o Nirvana, a Verdade Absoluta, a Realidade Última, precisamos com­preendê-la e realizá-Ia.

Em relação à Quarta Nobre Verdade, que é o Caminho que conduz à realização da Libertação, ou experiência do Nirvana, apenas o conhecimento do Caminho, por mais completo que seja, é insufi­ciente. Torna-se necessário segui-la e manter-se nele.

Sidarta afirma que aquele que vê qualquer uma das Quatro Nobres Verdades, vê também as outras. Assim, dizia: "Aquele que vê impermanência (dukkha) vê também a origem de dukkha, vê a cessação de dukkha e também vê o caminho que conduz à cessação de dukkha."

Esta resumida exposição apresenta um modo de vida que pode ser seguido, praticado e desenvolvido por qualquer indivíduo. É uma dis­ciplina do corpo, da palavra e da mente, sendo, assim, um auto-co­nhecimento e uma auto-purificação. Isto nada tem a ver com fé, crenças, orações, adorações, ou cerimônias. Neste sentido, não contém nada que possa ser chamado popularmente de "religião"; é um caminho que conduz à compreensão da Realidade Última, à liberdade, à felicidade e à paz, mediante a perfeição moral, intelectual e espiritual.

Nos países budistas há costumes e cerimônias simples. Elas, entre­tanto, têm pouca relação com o verdadeiro Caminho que Sidarta ensinou ser "pura ciência e filosofia", porém são úteis e válidas, até certo ponto, para satisfazer certas emoções e necessidades místicas dos povos.

Texto de Texto de Adalberto Tripicchio (adaptado)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sutra do Lótus - Resumo capítulo por capítulo - Cap 11 e 12

Capítulo 11 – Aparição de uma Stupa

Parte 1 – A Stupa

E durante a pregação, em meio à Assembleia, surge uma Stupa adornada com pedras preciosas e bandeiras, e dentro dela o Buda mítico Prabhūtaratna (O de numerosas pedras preciosas), que aparece confirmando as palavras de Shakyamuni, dizendo que o Ensinamento dado por este é a Verdade.
Prabhūtaratna pede, então, para que Shakyamuni sente-se junto a ele, Buda aceita o pedido e divide o trono com ele. A Stupa e o Buda mítico representam a própria Verdade que a tudo permeia e ao confirmarem o Dharma, atestam que este é uma manifestação desta Verdade.


Parte 2 – Os Budas chegam ao Universo Saha

Buda emite um raio de luz que faz com que todos vejam os Mundos com clareza, com todos os seus Budas e Bodhisattvas. Foi possível ver cada um deles; todos estes se dirigiam ao Universo Saha e conforme chegavam, “os Tathagatas tomavam assento cada um num trono ao pé de uma árvore de pedras preciosas”. Em seguida, Shakyamuni faz de todos estes mundos um único Mundo de Buda, com muitas árvores enormes, adornadas com pedras preciosas e muitos tronos para que os Tathagatas tomem assento e ensinem a Doutrina aos seres. O texto dá a ideia de uma Verdade Universal, única, que abrange a todos e como novos Tathagatas surgem ao perceberem esta Verdade.

Parte 3 – A História do Rei que foi um Buda numa vida anterior

Shakyamuni revela que fora um rei na vida passada, que esforçava-se em seguir o Voto das Seis Perfeições e praticava a Generosidade para com todos. Nesta época, os habitantes de seu reinado gozavam vida próspera e feliz, pois sua regência era baseada na Doutrina e não no próprio prazer. Este rei, consagrou seu filho mais velho para substituí-lo, abandonando o reinado na busca por algum mestre que o Ensinasse a Melhor Doutrina. Assim, ele encontrou um Rishi e se tornou servidor deste. Este Rishi o apresentou ao Sutra do Lótus, a Doutrina mais difícil de se encontrar, aquela que livra os seres dos renascimentos nos Mundos inferiores. Com afinco, Shakyamuni aprendeu este Sutra, e com diligência serviu àquele Mestre por mil anos.
Buda então revela que o Rishi era Devadatta, um bom amigo que, com seus conselhos, ajudou-o em seu progresso espiritual. Após ter encontrado Devadatta, Shakyamuni alcançou, em sua plenitude, as Seis Perfeições, a Grande Benevolência, a Grande Compaixão, a Grande Alegria, a Grande Paciência, as Trinta e Duas Marcas dos Grandes Homens [1], as Oitenta Marcas Secundárias [2], a pele de cor dourada, os Dez Poderes, as Quatro Confianças, os Quatro Meios de Atração, as Dezoito Qualidades Especiais dos Budas, a Grande Força do Poder Extraordinário e a Capacidade de Salvar os seres nas dez regiões do espaço.

[1] Signos ou Marcas ou Características (laksana): referências às 32 Marcas Características dos Grandes Homens, isto é, dos Budas. Indicam certos atributos corporais que diferenciam o corpo dos   Budas do corpo dos outros homens. Muitos deles estão presentes nas representações iconográficas dos Budas.
[2] Além das 32 anteriores, os Budas possuem mais 80 características menores.


Parte 4 – Bhikshu Devadatta

Buda preanuncia que Devadatta será um Tathagata conhecido como Devaraja, dotado de Sabedoria e de boa conduta, que será mestre de um Mundo de Buda chamado Devasopana (Escada dos Deuses) e que será responsável pela conversão de inumeráveis discípulos, Arhants, que farão surgir em si a Mente da Suprema Iluminação. Após a extinção de Devaraja, Buda recomenda a construção de uma Stupa e a veneração deste Tathagata.

Parte 5 – Diálogo entre os Bodhisattvas Prajnakuta e Manjushri

Nessa parte, o texto apresenta um diálogo entre os Bodhisattvas Prajnakuta (Estandarte da Sabedoria) e Manjushri sobre a conversão dos seres ao Veículo Superior, eles também conversam sobre os esforços de Shakyamuni em obter a Iluminação e sobre filha de Sagara que se converte em Bodhisattva. Então, diante da dúvida de Shariputra, que questionava a possibilidade de uma mulher alcançar a Iluminação, a filha de Sagara se transforma em homem, realiza a Paramita da Generosidade, presenteando Shakyamuni com uma joia e logo em seguida atinge o estado de Buda.
A conversão em homem da filha de Sagara representa a necessidade de se abrir mão das vaidades, típicas do sexo feminino, para a evolução espiritual.

Capítulo 12 – O Esforço

Parte 1 – A Promessa dos Discípulos

Os Bodhisattvas Bhaishajyaraja e Mahapratibhana, bem como os monges e outros discípulos, prometem dar continuidade à pregação do Sutra do Lótus, mesmo aos seres mais arrogantes, perversos e desprovidos de receptividade, após o Parinirvana de Shakyamuni.

Parte 2 – Novos pré-anúncios

Buda anuncia que sua tia, Mahaprajapati se tornará o Tathagata Sarvasattvapriyadarshana, que significa “De Olhar Amável para com todos os Seres”. A monja Yashodhara será o Tathagata Rashmishatasahasraparipurnadhvaja, que significa “Estandarte cheio de cem mil raios de luz”. Após estes pré-anúncios, ambas as mulheres prestam culto ao Bhagavant e prometem pregar o Dharma a todos os seres, afim de lhes trazer alívio.

Parte 3 – Suportando o Vitupério

Os Bodhisattvas predizem a vinda de um tempo, após a extinção do Buda, de degeneração do Dharma, quando Bhikshus heréticos enganarão as pessoas e caluniarão os seguidores da Verdade. Porém, os fiéis devem resistir a todas estas intempéries, permanecendo pacientes e diligentes na pregação da Doutrina.

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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Introdução aos Ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda (4) - TERCEIRA NOBRE VERDADE

TERCEIRA NOBRE VERDADE

Cessação do sofrimento da existência (nirvana)

A Terceira Nobre Verdade é a completa cessação do sofrimento, ou extinção da desarmonia entre o EU idealizado e o mundo real. É conseguida pela total erradicação de todas as formas de desejo, levando ao Nibbana (páli) ou Nirvana.

O Nirvana é realizado pela completa renúncia; não simplesmente renúncia aos objetos exteriores, mas, na realidade, pela renúncia interna às ligações com o mundo exterior; é a aniquilação da ilusão do eu pessoal de separatividade, do total dos apegos, afeições para consigo mesmo, apetites de sede de desejos que envolvem e suportam essa ilusão; são todos destruídos jun­tamente com a ignorância, o ódio, a ambição, e o mal que os acompanha. Eles morrem por falta do alimento que os susten­tava para nunca mais retornar. 

Para eliminar completamente dukkha, deve-se eliminar sua raiz principal - o desejo". Por isso, Nirvana é também conhecido como "extinção da sede de desejo", que se apresenta sob três formas, como já vimos na Segunda Nobre Verdade: desejo de prazer dos sentidos, desejo de existir e vir-a-ser (eternalismo); desejo de não-existência (aniquilamento).


Assim, para que se dê o dissipar da ilusão, é preciso destruir o "ser", que é impermanente, efêmero, perecível, nascido da ilusão. Para isto torna-se necessário eliminar o desejo.

Sensação do Arahant (páli) ou Arhat (sânscrito: aquele que conseguiu superar o sofrimento do Samsara e alcançar o Nirvana, como meta individual)

- Nagasena, aquele que não vai renascer está sujeito às sensações dolorosas?
- Algumas. Outras, não.
- Quais?
- Pode ter sofrimentos físicos. Mentais, não.
- Por quê?
- Não desapareceu a causa. A causa dos sofrimentos físicos não desapareceu, mas extinguiu-se a causa dos sofrimentos mentais. Sidarta disse: "Ele só pode ter uma espécie de sensação, a física, não a sensação mental."
- Se ele sofre, por que não realiza logo a sua extinção pela morte? 
- Maharaja, o Arhat está livre de apego e de aversão. Os sábios não querem o fruto verde, colhem-no quando está maduro. Sariputra disse: "Não desejo a morte. Não desejo a vida. Aguardo minha hora como o servidor espera o seu salário." 

Sermão a Radha sobre o que é o "ser"

Em Savathi, o venerável Radha dirigiu-se para junto de Sidarta e depois de sentar-se a seu lado perguntou: 
- Eu sempre ouço falar do ser. Digna-se o Bem-Aventurado a explicar-me o que é o ser?
- Esse desejo, essa sede, essa vontade, essa cobiça, que têm por objeto o corpo, que estão enraizados no corpo e solidamente enraizados nele, constituem o ser.

Esse desejo, essa vontade, essa cobiça, que têm por objeto as sensações, as percepções, as formações mentais, a consciência, enraizados no corpo, solidamente enraizados nele, constituem o ser.
lmaginai, Radha, meninos ou meninas que se divertem a erguer cas­telos de areia. Enquanto eles não deixam de ter desejos, vontade, cobiça, ou uma paixão ardente por estes pequenos castelos de areia, eles os querem, divertem-se com eles, têm-nos em grande apreço e são ciosos deles.

Mas, Radha, desde que estes meninos, ou estas meninas, deixem de ter desejo, vontade, cobiça, ou paixão ardente por estes pequenos castelos de areia, ali mesmo os desmantelam com os pés e com as mãos, os der­rubam e põem abaixo, sem lhes encontrar o menor atrativo.

Assim, Radha, reduzi e deixai de encontrar atrativos no corpo, aplicai­-vos a destruir todo desejo que ele vos desperta. E do mesmo modo agireis com as sensações, percepções, formações mentais e consciência.        Em verdade, Radha, a destruição do desejo é o Nirvana. 

Os ensinamentos do Mestre foram explicados de diversos modos, empregando palavras diferentes de acordo com o desenvolvimento e capacidade de assimilação das pessoas. Desta forma, nos textos, as definições e descrições se repetem de diferentes modos. Assim, encon­tramos várias definições e descrições de Nirvana:

"A cessação da continuidade e do vir-a-ser é Nirvana."
"O abandono e a destruição do desejo e da avidez pelos seus Cinco Agregados do apego é a cessação de dukkha."
"Bhikkhus, o que é o Absoluto (Incondicionado)? É a extinção de todas as formas do desejo, do ódio, da ilusão. 
Desta forma Sidarta definiu o Absoluto como Nirvana.


Frequentemente, Sidarta emprega, sem equívoco, a palavra Verdade em lugar de Nirvana: 
"Ensinarei a Verdade e o Caminho que leva à Verdade."
"A libertação fundada na Verdade é inquebrantável. O que é irreal é falso, a Realidade é a Verdade Absoluta - Nirvana."
" Foi descoberta esta verdade, profunda, difícil de se ver, difícil de se compreender, que apazigua o coração, que é sublime, que escapa ao raciocínio e não pode ser conhecida, senão pelos sábios."
"A Humanidade vive, agita-se e permanece no turbilhão do mundo. Será, por conseguinte, difícil a Humanidade compreender o encadeamento das causas e efeitos, e mais difícil ainda compreender a entrada no repouso de todas as formações, o desprendimento das coisas da terra, a cessação do desejo, o Nirvana." 

Onde, pois, está o Nirvana, esse algo que é de fato o Real, a Verdade que libera e apazigua o coração, conforme nos afirmam as citações de Sidarta? 
Se em parte alguma encontramos o Real e se, analisando as indi­vidualizações físicas e biológicas e o nosso próprio eu, não encontra­mos nada permanente, onde encontrar o Real? O que nos impede de conhecê-Io é a nossa concepção errada face à pluralidade do mundo das formas, onde a nossa mente se perde, perdendo assim a unidade do Universo; considerando-o como multiplicidade de coisas reais, nós damos realidade a coisas que, em si mesmas, não a têm, e essa con­fusão se estende à ilusão de um eu real e eterno.

Só quando compreendermos que tudo no Universo é imperma­nente, efêmero, uma cadeia de causas e efeitos sem realidade subs­tancial, e que tudo aquilo que julgamos ser o eu é apenas um agre­gado impermanente, efêmero, não-real, só então a compreensão da unidade do todo se dá e, com isso, o dissipar da ilusão. Assim, a realidade permanente existe, não, porém, na base do nosso eu, onde a procurávamos, nas formas individualizadas, pelo nosso ponto de vista ilusório. Quando esse erro se dissipa e os falsos desejos dele oriundos se extinguem, o permanente se revela, é o Nirvana.

A Verdade não se liga a nenhum Eu; é universal e conduz à equanimidade. Assim, interpretamos o Nirvana como a aniquilação da ilusão da falsa ideia de um "eu pessoal", onde toda noção de consciência de individualidade cessa. Um dos sinônimos comumente encontrados é Libertação, Liberdade absoluta, isto é, liberdade de estar livre da ignorância, do desejo, do ódio e de todos os conceitos de dualidade, relatividade, tempo e espaço.

"O dissipar da ilusão do eu é o Despertar completo, é a per­manente Vigilância ou Plena Atenção." Não conhecemos a Verdade, porque não somos vigilantes e, por isso, não nos conhecemos a nós mesmos. Nossa ação é sempre uma "reação" em função dos desejos mais ou menos inconscientes que dão conteúdo ao ser. Face aos estímulos do mundo exterior, reagimos em função das nossas limi­tações que são representadas por esses desejos. Ao mesmo tempo, alimentamos, consolidamos e obedecemos ao determinismo cármico ao qual estamos submetidos. O dissipar da ilusão é um estado de permanente vigilância, em função do qual há autoconhecimento e dissolução do “determinismo” cármico.

"Aos alhos de Sidarta, a procura do Nirvana é semelhante à ação de vigiar dia e noite". Assim, Nirvana é o estado de permanente Plena Atenção, é o fim dos renascimentos.


Para termos uma ideia do Nirvana coma Verdade absoluta, existe um notável discurso, no Majjhima-Nikaya, onde Sidarta dirigiu a palavra a Pukkusati, cuja síntese se segue.

- "Seis são os elementos que constituem o homem: solidez, fluidez, calor, movimento, espaço e consciência. O discípulo os analisa e descobre que nenhum deles é 'eu' ou 'meu'. Analisando, compreende como a consciência surge e desaparece, como as sensações agradáveis, desagradáveis ou indiferentes surgem e desaparecem. Em consequência desse conheci­mento, sua mente se desapega. Percebe, então, em si mesmo uma equa­nimidade pura, que ele pode dirigir alcançando um dos mais elevados estados espirituais. Ele sabe que esta pura equanimidade perdurará por um longo período de tempo. Mas observa: 'Se dirijo esta pura e clara equanimidade até a Esfera do Espaço Infinito e se se desenvolve uma mente correspondente, é uma criação mental. Se dirijo esta pura e clara equanimidade em direção à Esfera da Consciência Infinita, ou em direção à Esfera onde não existe Percepção, nem não-Percepção, e se se desenvolve uma mente correspondente, é uma criação mental." 

"Logo, ele não cria mentalmente, nem deseja a continuidade, o vir-a-ser, ou a aniquilação. Não se apegando a nada neste mundo, não sentindo apego, não está ansioso; como está liberto de toda ansiedade, está com­pletamente apaziguado (a chama do desejo está completamente extinta dentro de si). Ele sabe: "Terminou o renascimento, a vida pura foi vivida, fiz o que tinha de fazer."
"Após isto, quando experimenta uma sensação agradável, desagradável ou indiferente, sabe que todas são impermanentes, não se apega a elas, nem as experimenta com paixão. Qualquer que seja a sensação, ele a experimenta sem apego, ou aversão. Sabe que, com a dissolução do corpo, essas sensações se apaziguarão, como a chama de uma lâmpada quando o combustível e o pavio se consomem."

"Consequentemente, bhikkhus, uma pessoa assim dotada possui a Sabe­doria absoluta, porque o conhecimento da extinção total de dukkha é a nobre e absoluta Sabedoria."
"Aqueles que são desapegados, neste mundo, daquilo que foi visto, entendido ou pensado, de toda virtude e de todas as obras; que após terem-se desapegado de toda espécie de causa e terem penetrado a essência do desejo sadio sem paixão, a esses eu chamo homens que atravessaram a correnteza." 
Referindo-se ainda ao Nirvana, Sidarta disse: "Bhikkhus, existe o não-nascido, o não-tornado a ser (não-causado, incriado, inconstituído), o não-condicionado. Se não existisse o não-nascido, o não-causado, o não-condicionado, não haveria nenhuma possibilidade de libertação para o nascido, o causado, o condicionado." 

Na descrição sobre a origem de dukkha vimos que o ser, a coisa, ou sistema, se tem dom de produzir-se, possui em si a natureza, o germe da sua cessação, da sua destruição.

Dukkha, o ciclo da continuidade - Samsara -, tem por natureza o aparecimento; portanto, tem a natureza de cessar. Dukkha surge por causa do desejo ardente, da "sede" e cessa devido à Sabe­doria. Sede e Sabedoria encontram-se incluídas nos Cinco Agregados, como já foi visto.

"Se tua conduta, bhikkhu, foi caridosa e pura, então na plenitude da alegria, terás posto termo ao sofrimento."

O Nirvana é "alcançar o céu", do nosso ponto de vista ocidental, não sendo necessário esperar a morte para realizá-Io. 

O Nirvana não é uma condição negativa ou positiva. As noções de "negativo" e "positivo" são relativas e pertencem ao domínio da dualidade. O Nirvana está além do pensamento de dualidade e de relatividade; portanto, está fora das nossas concepções do bem e do mal, do justo e do injusto, da existência e da não-existência. Mesmo a palavra "felicidade", usada para descrever o Nirvana, tem um sen­tido completamente diferente.

Sariputra disse uma vez a Udayil:
- Amigo, Nirvana é a felicidade. 
- Mas, amigo Sariputra, que felicidade pode ser, se não há sensação?
A resposta de Sariputra é altamente filosófica:
- Não tendo sensação - isso mesmo é que é felicidade.

Estes termos, portanto, não podem ser aplicados ao Nirvana; a Verdade Absoluta está além da dualidade e da relatividade. O Nir­vana é um estado incondicionado de inefável bem-aventurança, de paz e alegria sem limites, como se atesta pelas declarações daqueles que o alcançaram. Aquele que realizou esta Verdade - Nirvana - é o mais feliz dos seres. Sua saúde mental é perfeita, não se arrepende do passado, nem se preocupa com o futuro; vive o momento presente, está livre da ignorância, dos desejos egoístas, do ódio, da vaidade, do orgulho, livre das dificuldades e dos problemas que atormentam os outros. Torna-se um ser puro, cheio de amor universal, compaixão, bondade, compreensão e tolerância. Presta ser­viço aos outros com a maior pureza, pois não pensa egocentricamente, não procura lucro, nem acumula coisa alguma; nem os bens espirituais, porque está livre da ilusão do "eu", da sede e desejo de vir-a-ser.

"Naquele que é caridoso, a virtude crescerá. Naquele que se domina a si próprio, nenhuma cólera pode aparecer. O homem justo rejeita toda maldade."

"Pela extirpação do ódio e de toda ilusão, tu atin­girás o Nirvana."

Onde esta o nirvana?

Certa vez, o brâmane Kutadanta perguntou a Sidarta: 
- Venerável Mestre, onde está o Nirvana?
- Onde quer que se obedeça à Lei (Doutrina).
Kutadanta replicou:
- Então o Nirvana não está em parte alguma e, portanto, não tem realidade.
O Bem-Aventurado disse:
- Não me entendeste. Escuta e responde. Qual é a morada do vento? Onde habita?
- Em parte alguma.
- Então não existe o vento? É uma ilusão?
Kutadanta não soube responder, e Sidarta tornou a perguntar:
- Dize-me, ó brâmane, onde reside a sabedoria? Está em algum lugar?
- A sabedoria não tem lugar determinado, disse Kutadanta.
E Sidarta disse:
- Dirás que não há sabedoria, nem justiça, nem salvação porque, como o Nirvana, elas não têm lugar determinado? Assim como a brisa veloz atravessa o mundo durante o calor do dia, também o Tathagata veio aliviar a mente humana com o delicado e suave sopro que alivia o calor de todo sofrimento.
Faze com que tua mente repouse na Verdade, difunde a Verdade e põe a Verdade em teu ser. E na verdade, viverás eternamente! O apego ao eu e à personalidade é morte contínua, ao passo que quem vive e se move na Verdade, alcança o Nirvana.

O Nirvana não pode ser descrito porque não há nada em nossa experiência mundana com o qual possa ser comparado, e nada que possa ser usado para fornecer uma analogia satisfatória. Ainda é pos­sível alcançá-Io e experimentá-Io enquanto com o corpo vivo e, desse modo, obter a inabalável certeza de sua realidade como um Dharma (Doutrina) que é independente de todos os fatores da vida condicio­nada. Este é o estado que Sidarta alcançou em vida e que possibilitou aos outros o atingirem, depois dele. Ele mostrou o Caminho com o convite: "Venha e veja por você mesmo."

Tem-se perguntado o que acontece ao Buda após sua morte. Existe uma palavra que é empregada para indicar a morte de quem atingiu o Nirvana: é Paranibuto e signi­fica "totalmente morto", "totalmente extinto", porque um Buda (indivíduo que atingiu o Nirvana) não renasce em nenhum plano depois da morte.
Respondendo a um asceta, Sidarta, o Buda disse que termos como "nas­cido" ou "não-nascido" não se aplicam a quem atingiu a Iluminação, por exemplo um Arhat, porque coisas como matéria, sensação, percepção, atividades mentais, consciência, com as quais os termos "nascido" ou "não-nascido" acham-se associados, estão completamente destruídos e desenraizados para não mais surgirem após a morte.

Quando se desenvolveu e cultivou a Sabedoria de a Quarta Nobre Verdade, que descreveremos a seguir, as coisas são vistas na realidade tais como são. Descobrindo-se a Verdade, todas as forças que produzem a continuidade do Samsara se acalmam, tornam-se incapazes de produzir novas formações cármicas, pois não há mais ilusão, nem "sede de desejo" para manter a continuidade. Seguindo o caminho com paciência e aplicação e se conscientemente nos exercitarmos e purificarmos seriamente, se alcançarmos o desenvolvimento espiritual necessário, chegará o dia em que nos será possível experimentar o Nirvana em nós mesmos sem nos embaraçarmos com palavras enigmáticas ou misteriosas. Esta Terceira Nobre Verdade será melhor compreendida pelo conhecimento da Nobre Senda Óctupla, que constitui a Quarta Nobre Verdade.

Texto de Texto de Adalberto Tripicchio (adaptado)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Quem é o Buda Amida? (Amitabha)

O Rev. Akegarasu disse que o termo “Buda Amida” se refere à paisagem espiritual do coração de Buda Sakyamuni. Disse também que o Buda Amida é um símbolo. Portanto, será importante conhecer o que realmente ocorreu no interior do coração do Buda Sakyamuni para compreender o que é o Buda Amida.

Sakyamuni alcançou a Iluminação debaixo da árvore Bodhi aos trinta e cinco anos. O que foi o conteúdo de sua Iluminação? O Rev. Akegarasu expõe a sua compreensão da seguinte maneira:

Terra Pura do Buda Amida

“Até aquele momento de sua vida, Sakyamuni sempre havia pensado que um demônio externo estava tratando de intimidá-lo ou seduzí-lo para um outro caminho. Porém naquele momento ele descobriu que o demônio era na verdade ele próprio. Este despertar o transformou em Buda, O Iluminado. Este foi o conteúdo da sua Iluminação. Foi o despertar da realidade de sua existência; da verdade de que “Eu sou o próprio demônio”. A partir daquele momento, Sakyamuni não pôde mais se dar ao luxo de observar, julgar e criticar os outros. Ele tomou consciência da realidade de que ele era o próprio demônio. O bom eu que pensava que existia no seu interior havia desaparecido totalmente. A partir daquele momento um mundo infinito se abriu perante ele. Um mundo imenso onde podia abrigar a todos. Abandonou a prática de distinguir entre o que é bom ou ruim, bem ou mal. Deixou de preferir somente o lado bom das pessoas. Uma nova vida havia começado para ele; a vida de estar unido com todos os maus deste mundo, firmemente fundamentado no pensamento de que Você é eu e eu sou você.”

O Buda Amida é o despertar espiritual de Sakyamuni que simboliza o Mundo do Não-Eu. O mundo do Não-Eu é o mundo da Luz e Vida Infinitas. Amida significa Luz e Vida Infinitas e Buda significa O Iluminado.

O mundo de Amida nos revela a verdadeira essência da nossa condição ordinária e tola, impregnada de desejos e sofrimentos e de ervas do mau karma. A Luz de Amida é a Luz da Sabedoria que simboliza o Não-Eu. A Luz de Amida iluminou Sakyamuni para que pudesse tomar consciência da sua condição de demônio e ele se uniu com esta Luz. Assim, o Príncipe Sidarta, Sakyamuni, se tornou o Buda Sakyamuni. Entretanto, se nós andamos por aí carregando o eu dizendo a todos que Eu Sou um Mau, não haverá nenhum Buda. Pelo contrário, simplesmente haverá um perverso impregnado de ervas de mal kármico. Por que? Porque ao afirmar o próprio eu, ainda carregamos o bom eu que está olhando o mau eu. Quando compreendemos verdadeiramente que o eu é algo que está em total unidade com mal kármico, todo o eu será extinto. Nesse momento um mundo novo de liberdade ilimitada se abrirá diante de nós. Esse mundo é um mundo de imensa alegria de estar junto com a Luz e a Vida Infinitas. O Buda Amida é algo real para aquele que está junto com ele. Se o Buda Amida fosse algo para ser compreendido lógica e objetivamente, esse Buda seria apenas uma visualização ou um fantasma.

O Buda Amida é o despertar da nossa própria condição de demônio. Ele existe no interior de cada um de nós e simultaneamente transcende a nossa própria existência através da auto-negação e da destruição do eu falso ou não verdadeiro. O Buda Amida é aquele que nos capacita a transcender a nossa própria existência e a atingir o Mundo do Vazio Absoluto. O Buda Amida é aquela força que nos faz levantar e gritar como Sakyamuni: “Nem na Terra Nem No Céu Existirá Um Ser Mais Virtuoso que Eu”. Todos os desejos, maldades e ilusões são carregados para longe pelo vento do despertar. Nada restará após essa experiência. Nascerá apenas a alegria da "Genuína Fé" de estarmos unidos para sempre com o Buda Amida.

Onde você encontrará o Buda Amida? Você o encontrará no próprio significado profundo da própria existência. A força desse despertar é a força que destrói o falso eu Não Verdadeiro e nos guiará para o despertar do Verdadeiro Eu. O Buda Amida é a descoberta do Vazio Absoluto. Ele não é algo ou alguém em quem devemos nos apegar ou acrescentar o nosso eu.

Muito pelo contrário, o Buda Amida é uma espada afiada de sabedoria que decepa as mãos atadas ao eu. A lâmina afiada da espada corta e destrói impiedosamente o tolo, carregado de desejos e sofrimentos.

Podemos verdadeiramente compreender corretamente o que é o Buda Amida quando compreendemos o que ocorreu na mente de Sakyamuni naquele momento de sua vida. O Buda Amida é a própria experiência do despertar do eterno fluxo da Vida; esse eterno Fluxo da Vida é a única verdade da Vida em que podemos confiar e entregar plenamente todo o nosso ser.

Shuichi Maida (trecho do livro “Quem é o Mau?”, editora Budagaya)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Sutra do Lótus - Resumo capítulo por capítulo - Cap 08, 09 e 10



Capítulo 8 – O pré-anúncio de Sua Iluminação feito por Buda a Quinhentos Monges

Parte 1 – Buda faz o pré-anúncio ao Venerável Purna e a Quinhentos Monges

Essa sessão começa com uma reflexão do Venerável Purna, filho de Maitrayani, que após a parábola do capítulo anterior, declara admirar a forma com que o Buda, conhecedor da mente dos homens, aborda os seres e os conduz à Iluminação através dos Meios Hábeis.
Buda então elogia Purna pela sua conduta virtuosa e preanuncia sua Iluminação, dizendo que este será o Tathagata Dharmaprabhasa e conduzirá muitos seres ao aperfeiçoamento espiritual.
Buda ainda anuncia a Iluminação de Kaundinya, que será o Tathagata Samantaprabhasa (Esplendor Universal) e a mais outros quinhentos Grandes Discípulos que serão conhecidos também pelo mesmo nome.

Parte 2 – A parábola do homem que, submerso na pobreza, desconhecia que tinha uma joia valiosa

“Certa vez, um homem entrou na casa de um amigo e esse amigo, enquanto ele estava descuidado ou dormindo, amarrou na franja de sua vestimenta uma joia de valor incalculável feita de pedras preciosas, pensando: 'Que esta joia feita de pedras preciosas seja para ele!' Então, aquele homem, levantando-se de seu assento partiu. E ele chegou a outra região do país. Ali teve dificuldades, encontrou dificuldades na busca de comida e vestimenta e com grande esforço de alguma maneira conseguia algum alimento e com ele estava satisfeito, contente, feliz.
Então, o antigo amigo desse homem, que havia atado aquela joia de valor inestimável feita de pedras preciosas na franja de sua vestimenta, voltou a vê-lo e lhe disse o seguinte: 'Por que tu, ó amigo, encontras dificuldades na busca de comida e vestimenta, quando eu, ó amigo, para que vivesses feliz, amarrei na franja de sua vestimenta uma joia de valor inestimável feita de pedras preciosas capaz de favorecer todos os seus desejos? Ó amigo, dei-te aquela joia minha feita de pedras preciosas. Eu a amarrei, ó amigo, aquela joia feita de pedras preciosas na franja de tua vestimenta. E tu na verdade não refletiste, ó amigo: "Que coisas amarraram na minha roupa?" ou "Quem amarrou isso?" ou "Qual é a causa ou por que razão amarraram isso? Ó amigo, és um néscio tu que, buscando dificultosamente comida e vestimenta, ficaste satisfeito. Vai, ó amigo, para a grande cidade levando essa joia feita de pedras preciosas e, lá chegando, troca-a por dinheiro. E com esse dinheiro faze todas as coisas que podem ser feitas com ele'.”
Sutra do Lótus capítulo 8  (K210-K211)

O texto usa de metáfora para reiterar uma verdade suprema: a Natureza Búdica que, mesmo presente nas pessoas, raramente é percebida devido às delusões. Esta natureza nada mais é do que a própria Iluminação latente, a verdadeira natureza da realidade. O homem, iludido, considerava-se feliz ao comer migalhas e se vestir com trapos, simbolizando aqueles que acreditam que o Nirvana se encontra nos Veículos Inferiores, porém, o amigo deste homem, que representa o Buda, diz existir algo superior àquele conhecimento limitado, a joia da Suprema Perfeita Iluminação, que uma vez encontrada, transforma uma vida de miséria em fartura.

Capítulo 9 – O pré-anúncio da Iluminação de Ananda, Rahula e outros dois mil Bhikshus

Os Veneráveis Ananda e Rahula também expressam seu desejo de receber o pré-anúncio de Iluminação, juntamente com mais de dois mil monges. Buda, então, inicia os pré-anúncios, primeiramente com Ananda, afirmando que este será o Tathagata Sagaravaradharabuddhivikriditabhijna, que significa “O que tem o Poder Extraordinário facilmente manejado por sua inteligência que é profunda como o oceano”. Buda explica que Ananda chegará a esta condição porque é dedicado a aprender muito e por manter conduta virtuosa. Ao ouvir estas palavras, o discípulo expressa bastante alegria.
Em seguida, Shakyamuni também anuncia a Suprema e Perfeita Iluminação a Rahula, que, por ser dotado de virtudes, se tornará o Tathagata Saptaratnapadmavikrantagamin, que significa “O que caminha vitoriosamente sobre lótus feitos de sete pedras preciosas”. Este Tathagata será considerado o “filho mais velho” de  Sagaravaradharabuddhivikriditabhijna.
Finalmente, o anúncio da Suprema e Perfeita Iluminação também é realizado aos dois mil Shravakas, que contemplavam o Bhagavant com uma mente serena e concentrada. Cada um deles terá seu próprio “Mundo de Buda” e serão responsáveis por angariar muitos discípulos. Estes monges, ao receberem o anúncio da Iluminação, assim como Rahula, muito se regozijaram.


Capítulo 10 – Os Pregadores do Dharma

Parte 1 – Iluminação anunciada a todos aqueles que venerarem o Sutra do Lótus

Os capítulos anteriores partiram de pré-anúncios individuais até que se alcançou a “promessa” aos dois mil monges. Neste capítulo, a Suprema e Perfeita Iluminação é ainda mais abrangente, sendo anunciada a todo aquele que venerar e prestar culto ao Sutra do Lótus. O texto sugere que o Sutra seja homenageado com incensos, flores, perfumes, músicas, etc.

Parte 2 – Respeito devido aos Pregadores do Dharma e os Efeitos do Culto ao Sutra do Lótus

Nesta parte, Buda alerta que todos aqueles que respeitam, defendem e ajudam a difundir o Dharma devem ser homenageados. Inclusive, ofender um Pregador do Dharma é uma falta mais grave do que ofender ao próprio Buda. Força interior, força proveniente das raízes meritórias e a força do Voto, além da proteção dos Tathagatas, são os benefícios concedidos aos Divulgadores do Sutra do Lótus. Não se devem entender tais benefícios como se fossem bênçãos místicas de alguma divindade, mas simplesmente bons frutos dos karmas produzidos pelos próprios Pregadores.

Parte 3 – A parábola do homem que procura água

Um homem que desejava água, sem outra opção, começou a cavar em um lugar deserto. Enquanto a terra ainda estava esbranquiçada, pensava estar longe de encontrar a substância, continuando, assim, a cavar.  Entretanto, quando no fundo do buraco começava a aparecer o lodo e a umidade, sabia que a água estava próxima. Da mesma forma age o Bodhisattva; por mais difícil e árido que seja o processo da Suprema e Perfeita Iluminação, este não se contenta em ficar na superficialidade da doutrina, preferindo se aprofundar na reflexão e no Conhecimento desta. Se desiste logo no começo, nunca perceberá a Essência do Dharma.

Parte 4 – Qualidades morais dos Bodhisatvas

O Bodhisattva deve reunir as seguintes características: benevolência, paciência, suavidade, compreensão da Vacuidade, mente não deprimida, dedicação aos estudos, eloquência, Sabedoria e resistência às críticas. O discípulo que assim procede “recebe do Buda” todo o suporte para que sua Sangha prospere.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Introdução aos Ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda (3) - SEGUNDA NOBRE VERDADE

SEGUNDA NOBRE VERDADE

II. A verdade da causa ou origem do sofrimento (Samudaya) 
    (desejo, ambição, anseio)


Causa do sofrimento

A Segunda Nobre Verdade é a que nos dá a possibilidade do conhecimento da Causa do Sofrimento (dukkha); da desar­monia entre o nosso eu ilusório e a Realidade. Esta Verdade nos ensina que o sofrimento, a existência, o eterno vir-a-ser é produzido pelo desejo, ânsia, sede ardente de satisfazer todas as formas de desejos ligados aos nossos sentidos, que continuamente procuram novas satisfações. Desta maneira o pensa­mento, sob a forma de desejo e ânsia em todos os seus aspectos, é uma força criadora que perpetua a continuidade da matéria na qual participa o processo do renascimento.

É essa sede de desejo, essa avidez que, manifestando-se de ma­neiras variadas, dá origem a todas as formas de sofrimento, assim como à continuidade dos seres. Porém não devemos considerar o desejo como sendo a primeira causa; segundo o budismo, não existe uma causa primeira; tudo é relativo e interdependente. Mesmo este desejo, que é considerado como a causa ou origem de sofrimento, depende em sua aparição de uma outra coisa, que é a sen­sação; e o aparecimento da sensação depende, por sua vez, do contato e, assim por diante, gira a roda da existência, designada pelo nome de Lei da Produção Condicionada ou da Causação Inter­dependente. 

Deste modo o desejo não é nem a primeira, nem a única causa do aparecimento de dukkha, mas, sim, a causa imediata, a causa prin­cipal que nossa mente pode conceber. Lembramos nesta síntese que o desejo tem por base a falsa ideia de um "eu" (eu pessoal), que surge da ignorância que mantém nossa aparente personalidade. A palavra "sede" compreende não somente o desejo e o apego aos pra­zeres dos sentidos, à riqueza e ao poder, como também às ideias, opiniões, teorias, concepções e crenças. Segundo a análise feita por Sidarta, todas as infelicidades, todos os conflitos do mundo, desde as pequenas discussões de família até as grandes guerras entre nações, têm suas raízes nessa sede de desejo. Os homens de Estado, que se esforçam por solucionar os conflitos internacionais falando de guerra e paz somente sob o aspecto político e econômico, só tratam daquilo que é superficial, não chegando, assim, à verdadeira raiz do problema. Como Sidarta disse a Rathapala: "O mundo sofre de frustração, ânsia e é escravo do desejo."

Os desejos apresentam-se sob as mais diferentes formas, a saber:

I. Desejo dos prazeres dos sentidos;
II. Desejo de autopreservação (existir e vir-a-ser); 
III. Desejo de não-existência (auto-aniquilação).

I. Desejo dos prazeres dos sentidos, em relação à visão, audição, olfato, paladar, tato e mente.

O desejo dos sentidos surge em conexão com um, ou mais, sen­tidos. O prazer não é a sensação nascida dos sentidos; uma pessoa pode ter prazer em uma sensação, ou pode ser indiferente a ela; por­tanto, o prazer depende da atitude mental da pessoa, que varia com os condicionamentos de costumes da família, do país, religião etc.

II. Desejo de autopreservação. 

O desejo de uma existência separada, individual ou egocêntrica é um dos mais fortes, porque todos nós temos o desejo de continuidade, o desejo de vir-a-ser, o desejo da existência de um ego e de que este suposto EU viva eternamente. Levado pela ilusão, o homem se delicia nos prazeres dos sentidos e no fato de sua existência - "eu existo" ou "minha existência" -, conceitua em ver as coisas como "minhas". Pela ilusão ele pensa: "o corpo é meu", "minha sensação", "meu pensamento", e não vê que a ilusão desta existência egoística é sofrimento. Pela ignorância, tem aversão a destruir os pensamentos de "eu" e "meu"; só reco­nhece que o desejo é sofrimento (Insatisfatoriedade), quando vê que também é Impermanência e Impessoalidade.

III. Desejo de aniquilamento. 

Apenas confirma a falsa existência do "eu", pois é baseado na ilusão da existência de um "eu" e "meu", ou pessoa que será aniquilada após a morte. Este desejo jamais leva à cessação da existência, pois para conseguir isto, torna-se necessário seguir um treino especial, isto é, trilhar a Nobre Senda Óctupla, ou Caminho do Meio.

Sermão sobre o desejo

"Feliz realmente é aquele que consegue satisfazer os desejos do seu coração. Mas quando não o consegue, o que então experimenta é a dor, como quando se é ferido por uma flecha.
Aquele que se acautela contra os prazeres dos sentidos, assim como faria para não pisar numa cobra, como fruto mesmo da permanente vigi­lância, evita o perigo dos desejos que possam ter conseqüências indesejáveis. Quem está sempre dominado pelos ardentes desejos de posse, terrenos, fazendas, ouro, gado, criados, mulheres, parentes etc., será finalmente derrotado pelos problemas e soçobrará, assim como o barco fendido quando invadido pelas águas.
Permanecei vós, portanto, sempre em vigilância, evitando os prazeres dos sentidos e libertando-vos do desejo.
Aliviando, pois, o barco de toda carga inútil, atravessai então a correnteza e atingi a segurança da outra margem - Nirvana." 


São quatro os elementos que sustentam a existência e continui­dade dos seres:

1. Alimento material comum.
2. Elemento de contato dos órgãos dos sentidos, incluindo nosso órgão mental com o mundo exterior (6 bases internas e externas). 
3. Elemento da consciência.
4. Elemento da volição mental ou Vontade.

Dos quatro elementos mencionados, o último - a volição mental - é o mais forte, pois engloba a vontade de viver, de existir, de continuar mais e mais. Tudo isto é a raiz da existência da continuidade, da luta que nos acompanha através dos bons e maus atos da vida. Sidarta, fazendo alusão à volição mental, diz: "Quando se compreendem os elementos que nutrem a volição mental, compreendem-se também as três formas de desejo." 

Segundo o budismo, o ser é somente uma combinação de forças ou energias físicas e mentais em fluxo constante. O que se chama de morte é somente a parada completa do funcionamento do corpo físico. Mas a vontade, o desejo, a sede de existir, de continuar, de vir-a-ser constituem a maior força existente que anima todas as vidas, todas as existências, o mundo inteiro. Essa força não se detém com a morte, continua manifestando-se sob outras formas, produzindo outras vidas, mas não será a continuidade de uma mesma vida (mesmo ser).

Assim os termos "sede", "desejo", "volição" têm todos, o mesmo sentido. Eles significam o desejo, a vontade de ser, de existir, de crescer cada vez mais, de acumular sem cessar. Esta é a causa do aparecimento do sofrimento - dukkha. Esse desejo se encontra no agregado das formações mentais, que é um dos cinco agregados que constituem um "ser". Portanto, a causa, o germe, o início do aparecimento do sofrimento encontra-se na própria mente do indivíduo que sofre, ainda que a causa pareça vir do exterior.

Carma

Pode-se admitir que todos os sofrimentos são causados pelo desejo egoísta, o que é fácil compreender. Mas como esse desejo, essa "sede" pode produzir a re-existência e o eterno vir-a-ser? Para isto é necessário compreender o aspecto filosófico da teoria do Carma e do renascimento, que constitui um dos princípios fundamentais da doutrina budista. 

A palavra carma (páli: kamma) significa literalmente "ato", ou "ação". Mas na teoria budista, carma tem um sentido específico: ex­pressa unicamente a ação volitiva, boa ou má, consciente ou incons­ciente. Cada ação volitiva produz seus efeitos, resultados, ou frutos. Um bom Carma, ou uma boa ação, produz bons efeitos; um mau Carma, ou má ação conseqüentemente, produzirá maus efeitos. O desejo, o querer, o Carma, bom ou Carma mau, tem por efeito uma só força, a força de continuar numa direção boa, ou má.

No budismo, o Carma é uma teoria de causas e efeitos, de ação e de reação. Pela volição, o homem age com o corpo, a palavra e a mente. Os desejos geram ações; as ações produzem resul­tados; os resultados trazem novos desejos, e assim sucessivamente. Este processo de causa e efeito, ação e reação exprime uma lei na­tural que nada tem a ver com a idéia de uma justiça retributiva (não há o conceito de pecado). É o simples resultado da própria natureza do ato, vinculado à sua própria lei de causa e efeito, o que é fácil de ser compreendido.

A teoria do Carma não deve ser confundida com a falsa concepção ou ideia de recompensa ou punição decretada por um Ser Supremo, um Legislador que julga e sentencia a natureza dessa ação. Justiça é um termo ambíguo e perigoso, e em seu nome fez-se mais mal do que bem à Humanidade.

O que é difícil de se compreender na teoria cármica é como os efeitos de uma ação volitiva podem manifestar-se, mesmo em uma vida póstuma. O Carma abrange tanto a ação passada; quanto a presente. Portanto, em um sentido, somos o resultado do que fomos e seremos o resultado do que somos. O presente, sem dúvida, é o resultado do passado e a origem do futuro, mas o presente não é sempre um ver­dadeiro índice, simultaneamente do passado ou do futuro, tão intrin­cada é a lei do Carma. Conforme semeamos, colhemos nesta vida, ou em um futuro nascimento. O que colhemos hoje foi aquilo que semea­mos, tanto no passado, como no presente. Carma, em si mesmo, é uma lei que opera no seu próprio campo de ação. As nossas ações passadas, cujos efeitos chamamos, hoje, nosso destino, influenciam o nosso pre­sente, mas possuímos livre-arbítrio completo e total, plena liberdade de ação.

O Carma do passado condiciona a atual condição e o atual Carma, e o livre arbítrio condiciona o futuro. A realidade do presente dispensa provas, pois é evidente por si mesma. O passado é baseado na memória e na referência, e o futuro na reflexão e na dedução.

Esta Lei do Carma explica o problema do sofrimento tanto indi­vidual como coletivo, e, acima de tudo, a desigualdade da Humanidade. O sofrimento é a conseqüência de alguma ação errada do passado, simplesmente isso, quer se trate de uma criança ou de um velho so­fredor. O sofrimento é o pagamento de nossas próprias dívidas.

O Bem-Aventurado disse:

"Os homens diferem pela diferença nas ações. Os seres têm seu patrimônio, o seu Carma; são herdeiros, descendentes, parentes, vassalos do seu Carma. O Carma classifica os homens em superiores e inferiores."

O venerável monge Piyadasi Thera observa: 
"Desta forma, a existência individual é uma sucessão de mutações, algo que toma forma e se desvanece, que não permanece igual, nem por dois mo­mentos consecutivos. Este organismo psicofísico, se bem que se transforma incessantemente, cria novos processos psicofísicos a cada instante e, assim, conserva a potencialidade de futuros processos orgânicos, não deixando nenhum vazio entre um momento e outro. Vivemos e morremos, a cada momento de nossas vidas. É só um aparecer e desaparecer como as ondas do mar."


"Estas mudanças na continuidade, que são evidentes para nós nesta vida, não cessam com a morte. O fluxo mental continua sem cessar, como a corrente elétrica que continua existindo, apesar de a lâmpada estar queimada e de a luz não se manifestar. Mas, instalada uma nova lâmpada, outra vez a corrente elétrica se manifesta, acendendo-a. É este fluxo dinâmico que se chama Carma."

Por alguns processos que nós só poderemos entender inteiramente quando tivermos nós mesmos alcançado a Iluminação, a força invisível gerada pela mente, quando ela é liberta do corpo e projetada para além da morte, agarra-se aos elementos do mundo material e deles, pelo processo natural de geração, molda uma nova forma de vida. Os elementos estão sempre presentes no mundo físico e entram juntos na disposição exigida quando a concepção tem lugar. É, contudo, a mente (o fator pouco conhecido e invisível) que dá à nova existência a sua individualidade. 

Esse processo do Carma é inseparável do processo paralelo de renascimento, porque o renascimento não é a reencarnação de uma "alma" depois da morte, porém, mais precisamente, a continuação da corrente de causa e efeito, na natureza. Nada há no Universo que não esteja sujeito a mudar; assim, não há entidade estática que possa ser chamada "alma", na aceitação geral deste termo. Esta ideia não é peculiar ao budismo, pois foi conhecida pelos filósofos desde o tempo de Heráclito, até aos psicólogos e neurologistas de nossos dias; mas foi deixada por Sidarta, por meio de sua iluminada sabedoria, ao des­cobrir como isto podia ser e ainda perceber que esse fluxo é, de fato, a base de um renascimento contínuo.

Renascimento do Nome e Forma

- "Nagasena, o que é que renasce? 
- O nome e forma (cinco agregados, fenômenos psicofísicos).
- É o presente nome e forma que renasce?
- Não. O presente nome e forma realiza um ato bom ou mal; em conseqüência desse ato, um outro nome e forma renasce. 
- Se não é o mesmo nome e forma que renasce, não estará ele liberto dos atos ou pecados anteriores do novo nome e forma?
- De fato seria assim, se não houvesse renascimento. Mas como há renascimento, assim não é.
- Dá-me uma comparação.
- Suponha que um homem furte mangas de um outro. O dono das mangas prende-o e o leva ao rei, acusando-o de roubo. Defende-se o acusado alegando: 'Não são as mangas deste homem que eu tirei; umas são as mangas que ele plantou, outras são aquelas que eu tirei; não mereço nenhuma punição!' Esse homem é culpado?
- Sim.
- Por quê?
- Apesar do argumento desse homem, as mangas que ele colheu são solidárias com as primeiras.
- Da mesma maneira, maharaja, quando o nome e forma executa um ato, bom ou mau, é este ato que determina o renascimento de outro nome e forma; não se pode dizer que este se tenha libertado dos atos ou pecados anteriores.
- Dá-me outra comparação.
- Um homem no inverno acende uma fogueira no campo. Ele se aquece, depois se retira, sem apagar o fogo que se alastra queimando a lavoura do vizinho. Este o prende e o leva perante o rei, acusando-o de ter incendiado sua lavoura. Se o acusado se defende argumentando: 'Não fui eu quem incendiou a lavoura deste homem. O fogo que deixei aceso, não foi o mesmo que se alastrou incendiando a plantação. Não devo ser punido.' Esse homem é culpado?
- Ele o é.
- Por quê?
- Apesar do seu argumento, o último fogo é solidário e relacio­nava-se com o anterior.
- Dá-se o mesmo com o nome e forma.
- Sem dúvida é outrem o renascido, mas nem por isso deixa de proceder de alguém que morreu. Portanto, não se pode dizer que esteja liberto de pecados anteriores." 

O que chamamos vida, já vimos, é a combinação dos Cinco Agregados, uma combinação de energias físicas e mentais que mudam incessantemente. "Quando os agregados aparecem, declinam e morrem, bhikkhus, a cada instante vós nasceis, declinais e morreis." Conse­quentemente, durante a vida nascemos e morremos a cada instante, no entanto, continuamos a existir. É como a chama de uma vela, que não é sempre a mesma, nem tampouco outra.

A Cadeia dos Renascimentos

- "Nagasena, aquele que renasce é o mesmo, ou um outro? 
- Nem o mesmo, nem um outro.
- Dá-me uma comparação.
- Quando eras criança, maharaja, uma tenra criança deitada sobre o dorso, eras o mesmo de hoje?
- Não, Venerável, eu era outro.
- Sendo assim, não tens nem pai, nem mãe, nem preceptor! Tu não te formaste nas artes, na virtude, na sabedoria. Haverá, então, uma mãe nova para cada novo estado do embrião, uma mãe para a pequena criança e outra para o homem feito? Um é aquele que se instruiu, outro aquele que se tornou instruído! Um o autor de um crime, outro aquele que recebe o castigo.
- Não, por certo, Venerável, e tu que me dizes?
- Já fui criança e agora sou homem, eu mesmo. O ser humano, em suas diversas fases, tem sua unidade no corpo.
- Dá-me outra comparação.
- Se acendemos um facho, este pode queimar a noite inteira?
- Sim, é possível.
- A última chama do facho é a mesma da hora anterior?
- Não.
- Há, então, uma chama diferente em cada hora?
- Não, o mesmo facho queimou toda a noite.
- Portanto a chama não é a mesma, e não é outra, da mesma maneira, maharaja, que o encadeamento dos Carmas é continuo; um surge quando outro desaparece, não há entre eles nem precedente, nem seguinte. Por conseguinte, não é nem o mesmo, nem um outro que recolhe o último ato de consciência.
- Dá-me uma outra comparação.
- Quando o leite transforma-se em coalhada, manteiga ou queijo, pode-se dizer que o leite fresco é o mesmo que o leite coalhado, manteiga ou queijo?
- Não, mas todos procedem dele.
- A mesma coisa se dá com o encadeamento dos Carmas."

Nossas ações não são perdidas, mesmo depois da morte. Após a dissolução do corpo, nossa atuação continuará produzindo seus frutos. "Isto, ó discípulos, não é vosso corpo, nem o corpo de outros; é preciso considerá-Io como obra do passado, tendo tomado forma, realizado pelo pensamento, tornado palpável." 
A causação gerada em nossa vida, como parte que é da causação universal, continua produzindo seus frutos mesmo após a desintegração do corpo. Em conseqüência da causação gerada no transcurso de uma existência, um novo ser renascerá futuramente em qualquer parte para continuação desta causação. Um novo ser, que é novo apenas em um certo sentido, mas que é o mesmo no sentido cármico, exatamente como o jovem que, saindo de uma universidade com o título de doutor, em um certo sentido, em relação à criança que vinte anos antes entrara nessa escola, é um outro ser, mas que no sentido da causação é, no entanto, o mesmo indivíduo.

A identidade da personalidade é dada pela continuidade; é uma continuidade semelhante àquela graças à qual identificamos um rio como entidade, muito embora a água que o constitui se renove sem cessar. A continuidade cármica é o rio de ação que constitui o indi­víduo e o identifica. Não se trata da transmigração de um ego eterno que salta de uma existência para outra. Sidarta refuta cate­goricamente o falso ponto de vista que quer perpetuar o eu e eternizá­-lo. Há apenas continuidade de Carma.

Assim, o renascimento não tem o sentido da imortalidade, mas apenas o de uma simples continuidade dentro da mutabilidade. Quan­do uma chama acende uma outra, nada transmigrou. Exatamente como a passagem da chama de uma vela, para o advento de uma chama em outra vela, é a passagem do Carma, do corpo já imprestável pela morte, para um novo agregado de ma­terial, adequado à continuação do processo [da vida, mas que em hipótese alguma é o mesmo eu].

Texto de Texto de Adalberto Tripicchio (adaptado)

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