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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Parábolas de Buda - A Casa Incendiada (Sutra do Lótus)


A parábola conta a história de um pai - dono de uma grande casa de madeira, suja e de estrutura podre com teto de palha - que percebendo um incêndio em seu imóvel, tenta salvar seus filhos que ali brincavam. As crianças, mesmo em meio ao fogo, não notavam o perigo e continuavam a brincar e rir. O homem até pensou em pegá-las nos braços e retirá-las dali, porém a inquietude dos jovens e a estrutura da casa o impediam de assim proceder, frente a esta impossibilidade, começou a chamá-los, porém em vão; seus filhos continuavam a brincar, não compreendiam nem mesmo o significado da exclamação “está se incendiando”.

A dificuldade fez o homem pensar em algum meio para resgatar seus queridos. Como conhecia os pensamentos e as inclinações destes, resolveu dizer que os brinquedos mais divertidos estavam do lado de fora da casa. A “técnica” funcionou e todos deixaram a casa rapidamente.

Vendo seus filhos a salvo, o homem muito se alegrou, entregando aos jovens não os “brinquedos prometidos”, mas carruagens muito mais opulentas e belas; veículos dotados de bastante velocidade e força, todos de uma mesma cor e de um mesmo tipo, não mais puxados por cabras ou cervos como eles imaginavam, mas somente por bois. O homem assim agiu devido ao sentimento de equanimidade com seus descendentes, e estes, por sua vez, se sentiram deslumbrados com os presentes.

Terminada a parábola, o Bhagavant pergunta a Shariputra se o homem houvera mentido às crianças. Shariputra responde que não, pois se não tivesse empregado um meio hábil, as crianças teriam morrido e não teriam sido presenteadas. Pois com a salvação da vida as crianças na realidade receberam “todos os brinquedos”. Com efeito, mesmo que o homem não tivesse dado nada para as crianças, as teria salvo do sofrimento, do que por si só seria um grande ganho; porém, mais do que isso, as presenteou com as carruagens, todas de um mesmo tipo e cor.

Explicação e Aplicação da Parábola

O homem simboliza o Tathagata, o Perfeitamente Iluminado, “livre de todo temor, libertado de tudo, em tudo, de todas as formas, de todo infortúnio, desespero, aflição, sofrimento, desalento, da obstrução produzida pelo véu da cegueira proveniente da treva e da obscuridade da ignorância. O Tathagata está dotado das Qualidades Especiais dos Budas: o Conhecimento, a Força, a Confiança em Si Mesmos […] possui a Grande Compaixão, é de mente incansável, é benevolente, compassivo” (trecho K77 do Sutra do Lótus).

O fogo é o sofrimento e o desalento; os seres submetidos ao fogo encontram-se atormentados pelo nascimento, velhice, enfermidade e morte, pela dor, lamento, apegados aos prazeres sensuais, experimentam a decepção e acabam recaindo nos mundos inferiores. Submetidos a esta 'casa incendiada', não percebem o estado em que estão, “se regozijam, saltam de um lado para o outro […] golpeados por essa grande massa de sofrimento, não fazem surgir a ideia de voltar sua atenção para o sofrimento” (trecho K78).

O Tathagata quer salvar seus filhos do sofrimento para que gozem de felicidade e obtenham o Conhecimento próprio dos Budas, libertando-os das delusões. O Buda não precisa usar de força, pois ele tem a Habilidade dos Métodos (estratégias para atingir os seres), que quando empregada liberta os seres dos Três Mundos (raiva, ganância e ignorância), oferecendo-lhes magníficos e grandes veículos. Para que as crianças deixem a casa, o Tathagata primeiramente oferece os Veículos provisórios (Sharavakas, Pratyekabuddhas e Bodhisattvas) dizendo assim:

Não vos regozijeis nos Três Mundos, semelhantes a uma casa incendiada, com as formas, os sons, os odores, os sabores, os contatos, de tão escasso valor. Regozijando-vos nestes Três Mundos, estais ardendo, sois atormentados, sois torturados pela sede do desejo pelos cinco tipos de objetos dos prazeres sensuais. Escapai desses Três Mundos! Conseguireis os Três Veículos: O Veículos do Sharavakas, o Veículo dos Pratyekabuddhas e o Veículo dos Bodhisattvas! […] aplicai-vos neles para encontrar a saída dos três mundos […] com eles vós brincareis, gozareis e vos divertireis imensamente. Com as Faculdades e Poderes, com os Elementos constitutivos da Iluminação, com as Meditações, as Liberações, as Concentrações da Mente, [assim] estareis dotados de grande felicidade e alegria” (K79).

Os Três Veículos provisórios são utilizados em vista da própria realização e do próprio Nirvana. Já a carruagem adornada com joias, ou seja, o Grande e Único Veículo, é dado aos filhos para que estes atinjam o Conhecimento, Força e Confiança em Si Mesmos, com o intuito de buscarem, antes da realização pessoal, o Nirvana Supremo de todos os seres. O Tathagata procede desta forma porque respeita a capacidade de seus ouvintes, se pregasse diretamente o Veículo Único, não salvaria seus filhos das chamas do sofrimento. Assim, os Veículos Provisórios são apenas uma primeira etapa, a libertação do apego pelo entendimento das Quatro Nobres Verdade, contudo, há ainda um outro degrau a subir, a Suprema Iluminação.

Na reiteração da parábola em versos é possível vislumbrar outros detalhes sórdidos da casa de madeira, como excrementos, odores, fantasma famintos, animais peçonhentos e demônios assombrando lugar, todos representando os Mundos Inferiores e os sofrimentos.

domingo, 23 de março de 2014

A Essência do Sutra do Lótus

A Essência do Sutra do Lótus
por Marcelo Prati (Renji)

Recentemente postamos um texto sobre o conceito de mente no Budismo, você pode ler clicando AQUI. Depois, conversando com Sandro, eu fiquei pensando... algumas ideias, construções de pensamento, podem parecer complexas para algumas pessoas, já que nós somos tão diferentes uns dos outros, possuímos histórias de vida diferentes, propensões diferentes, profissões, gostos, enfim... como faríamos para levar em consideração a diferença entre os seres humanos e suas particulares inclinações? Simples. O cânone budista é enorme, existem milhares de textos e ensinos que, contudo, visam o alcance do mesmo ponto. São várias formas de se chegar no mesmo lugar. Vou explicar melhor.

Mudra da Roda da Lei
O Buda girando a Roda do Dharma.
O Sutra do Lótus é considerado por Chih-i T'ien-t'ai e diversos outros mestres como o topo, o teto do desenvolvimento do pensamento religioso. Um dos pontos centrais desse sutra é a unificação de todos os ensinos num corpo único, onde todos os textos apontam para uma mesma direção. Sendo assim, há um ensino apropriado para pessoas de maior ou menor erudição ou com determinadas aptidões particulares, etc. Contudo, isso nada tem a ver com a ideia moderna de que todas as religiões são iguais, pois é óbvio que elas não são. Não se pode afirmar que uma religião como o Budismo - onde não há deuses, nem orações, nem pedidos, nem bênçãos, nem recompensas no presente nem no futuro (tudo isso é absolutamente claro no cânone), uma religião criada por seres humanos e completamente voltada ao desenvolvimento dos seres humanos - seja igual ao que se tem no imaginário popular atrelado ao conceito de "religião", ou mesmo ao que se vende popularmente como Budismo, uma distorcida miscelânea indigesta e pseudo-esotérica.

Temos então uma consideração interessante para fazer. O Budismo que era dividido entre Pequeno Veículo (Hinayana) e Grande Veículo (Mahayana) é na verdade, um único movimento crescente que culmina no Sutra do Lótus com o conceito de Veículo Único. Além disso, através do conceito de Meios Hábeis (meios expedientes, habilidade nos métodos, dependendo da tradução que você tenha disponível) explica-se que através de seus próprios métodos, os budas criam "estratégias" para que os mais variados tipos de seres atinjam o mesmo objetivo na prática budista. Leia:
"Ó Shariputra, Eu ensino aos seres a Doutrina pensando num Único Veículo - o Veículo dos Budas. Não existe, ó Shariputra, um segundo ou terceiro Veículo. Em todas as partes ó Shariputra, no universo com suas dez direções, essa é a essência da Doutrina.
(...)
"Aqueles Tathagatas, Arhants, Perfeitamente Iluminados, que, ó Shariputra, num tempo futuro, nas dez regiões do espaço, nos incalculáveis, incomensuráveis sistemas de mundos, hão de existir para o bem de muitos homens, para a felicidade de muitos homens, por compaixão do mundo, para o benefício, para o bem, para a felicidade da imensa comunidade de seres, de Deuses e de homens, e que, conhecendo as inclinações dos seres de múltiplas propensões, de múltiplos caracteres e inclinações, ensinarão a Doutrina propondo múltiplas formas de auto-realização, com variados esclarecimentos mediante provas e razões, com a explicação dos fundamentos, com Habilidade nos Métodos - todos esses Budas, Bhagavants, ó Shariputra, ensinarão aos seres a Doutrina pensando num Único Veículo.
(...)
Também agora Eu, ó Shariputra, que sou um Tathagata, Arhant, Perfeitamente Iluminado, conhecendo as inclinações dos seres de múltiplas propensões, de múltiplos caracteres e inclinações, ensino a Doutrina propondo múltiplas formas de auto-realização, com variados esclarecimentos mediante provas e razões, com a explicação dos fundamentos, com Habilidade nos Métodos (...) E aqueles seres que, ó Shariputra, ouvem agora minha Doutrina, todos eles também obterão a Suprema Perfeita Iluminação. Desta maneira, ó Shariputra, que se saiba que não existe em nenhum lugar, nas dez regiões do espaço, no mundo, o ensinamento de um segundo Veículo, quanto mais de um terceiro."
(Sutra do Lótus, c.II)
No capítulo III isso ainda fica mais claro com a parábola da casa em chamas. Para quem não conhece, tomo a liberdade de oferecer um resumo:

Há uma casa onde habitam todos os tipos de seres, toda sorte de animais, demônios e feras. Essas bestas divertem-se em rasgar e comer carnes alheias, despedaçando cadáveres e brutalmente ferindo umas as outras. Criaturas diabólicas maltratam cães e riem-se disso. Outros espíritos famintos se arrastavam nus, raquíticos, gemendo e lamentando a procurar comida, nunca estando satisfeitos.
De súbito a casa é tomada por fogo e inevitavelmente será consumida pelas chamas. Esses seres terríveis são tomados pelo desespero. Correm, matam-se uns aos outros, tragam-se, gritam e chiam enquanto o cheiro podre de excremento e sangue se espalha por todo o mundo. Os fantasmas famintos mesmo com os cabelos em chamas ainda se torturam a reclamar de sua fome. O dono daquela casa chega e vê tal cena horrível e imediatamente lembra de seus filhos ocorrendo-lhe a ideia de entrar na casa e buscá-los, mas como crianças são brincalhonas, poderiam achar que era um tipo de jogo. Elas correriam achando que ele não falava sério. De pé na porta então grita:
- Meus filhos! Saiam dessa casa! Ela está pegando fogo! Saiam e não sejam vítimas desse desastre! Aí dentro está cheio de demônios, bestas e animais que procuram carne para se alimentar! Mesmo que não houvesse incêndio, ainda assim a casa seria perigosa!
Contudo as crianças não saem... brincam, iludidas com seus jogos, não prestam atenção no que o homem diz e algumas delas nem sequer sabem o que significava "desastre" ou "incêndio."
Então, o homem conhecendo as inclinações de seus filhos usa suas habilidades para atraí-los dizendo:
- Olhem, crianças! Tenho presentes para vocês! Aqui fora há carruagens cheias de cores e maravilhosas como vocês sempre sonharam! Há carrinhos puxados por bois, por cabras e por cervos! Saiam da casa e venham brincar com eles!
Ao ouvir aquilo, as crianças correm para fora e ao chegar perguntam ao pai onde estavam os três tipos de carruagens que ele dissera. O pai então dá a todos os seus filhos carruagens belas, reluzentes, velozes, enfeitadas e cheias de cores, porém, todas igualmente puxadas por bois brancos.

A casa é o mundo fenomênico. Seus habitantes são os seres à cata de satisfações passageiras. Quando forçados a encarar a impermanência de tudo aquilo (o fogo consumindo a casa) sofrem e se desesperam ao perceber que nada pode - nem vai - durar. O homem opulento é o Buda. Ele lança um aviso, mas perdidos em nossa ignorância não ouvimos ou nem mesmo entendemos. Então ele ensinou diversas maneiras de se deixar a casa. Para quem desejava ouvir o ensinamento da boca de um mestre, ensinou o caminho do sravaka (os que desejavam o carro de cervos), a disciplina para se atingir as Quatro Nobres Verdades, etc. Para os praticantes solitários, que através do autocontrole e serenidade chegariam à mesma compreensão, ensinou o veículo dos pratyekabuddhas (quem desejava o carro de cabras) e aqueles que buscaram o conhecimento próprio dos budas, com o objetivo de alcançar a todos os seres e beneficiar a todos (o carro de bois), esses assumiram a postura do Grande Veículo e são chamados de Bodhisattvas Mahasattvas. E no fim, o objetivo do caminho dos Sravakas e dos Pratyekabuddhas era atingir o estágio do Bodhisattva (por isso receberam o carro de bois ao sair da casa). Como fica bem claro nesse trecho do mesmo capítulo:
"... o Tathagata, ó Shariputra (...), é capaz de ensinar a todos os seres uma doutrina que comporta o conhecimento próprio do Onisciente. Desta maneira, ó Shariputra, que se saiba que é assim que o Tathagata ensina apenas um Único Grande Veículo com as realizações de sua Habilidade nos Métodos e de seu Conhecimento."
E no capítulo V:
"Eu, o Rei da Doutrina (...) prego a Doutrina conhecendo suas inclinações. Os Grandes Heróis de firme inteligência, por longo tempo ocultam sua mensagem, eles a mantém secreta e não a dizem aos seres. E os ignorantes, de escassa inteligência, ao ouvir subitamente aquele Conhecimento difícil de compreender, seriam presa da dúvida; privados dele, eles vagariam confundidos. Eu falo a cada um segundo sua capacidade, conforme sua força; retifico suas opiniões com variadas razões.
(...)
"E aquela água de um único sabor pela nuvem liberada, e estagnada aqui na terra, segundo sua força, conforme sua capacidade, as gramíneas e os arbustos a bebem.
(...)
Elas, segundo sua força, seja qual for a sua capacidade, sua semente, dão cada uma seu próprio broto, mas a água liberada pela nuvem tem um único sabor."
E no importantíssimo capítulo XIII, sobre a conduta do Bodhisattva:
"... quando prega o Dharma, o faz sem que falte nada, sem que sobre nada, com amor igual por todo o Dharma; nem sequer por amor ao Dharma favorece mais qualquer parte dele, quando está dando a conhecer esta Exposição da Doutrina."
Ou seja, o Bodhisattva analisa o ensino enquanto totalidade, compreende o Dharma como uma unidade, não escolhe de acordo com a própria conveniência um sutra específico ou pior, ainda dentro deste o segmenta dizendo que apenas determinados capítulos importam e os demais devem ser descartados.

Sendo assim, fica claro que todo e qualquer ensinamento legitimamente budista, é válido e conduz ao mesmo lugar, o assento da libertação do ciclo de renascimentos e consequentemente ao fim do sofrimento, medo e angústia, um processo mental, interno e para ser vivido nesta única vida presente. Portanto, se alguém disser que o sutra da luz roxa com bolinha amarela ou o mestre juquinha do himalaia são os verdadeiros e todos os outros estão errados, aprenda a lidar com isso, essa pessoa está mentindo. E mais, se outro disser ainda que todos os ensinos, sem distinção, sem análise, sem questionar, estão corretos, além de mentiroso, tal pessoa é hipócrita, pois tal comportamento não passa de autopreservação sob a máscara de falsa bondade. "Não ataco para que não me ataquem, pois não terei argumentos para defender minha posição."

Mas como reconhecer o caminho?

Se existem ensinamentos legítimos, existem também falsos, correto? Correto. Então, qual seria o critério? Análise e reflexão num processo pessoal. Não é através do que fulano disse, mesmo que ele seja "uma pessoa respeitada que todo mundo conhece", nem só por constar num texto velho. Nada no Budismo é pautado em fé ou crença inquestionável. Desde os primeiros textos é feito um convite à dúvida, como consta na clássica passagem do Sutra aos Kalamas onde é atribuída ao Buda a afirmação:
“Agora Kalamas, não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, ‘Este contemplativo é o nosso mestre.’ Quando vocês souberem por vocês mesmos que, ‘Essas qualidades são hábeis; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem-estar e à felicidade' - então vocês devem penetrar e permanecer nelas."
Ou seja, somente depois de analisar bastante, de acordo com a inferência lógica e conclusões sólidas, se você perceber que existe algo ali que seja mensurável e que necessariamente leve a um ponto superior, melhor, um objetivo concreto e favorável, faça.

Quais seriam os pontos a se considerar nessa avaliação?

Existe algo que é chamado de Dharmamudra, ou Selos do Dharma. São chamados de selos, pois são características usadas para distinguir um ensinamento budista verdadeiro de um falso. Eles são:
  1. A impermanência. Ou seja, todas as coisas que surgem, inevitavelmente desaparecerão, se dissolverão.
  2. O sofrimento. A impossibilidade de se adquirir satisfação através de tais coisas manifestas, já que impermanentes.
  3. A insubstancialidade. Todas as coisas são desprovidas de ego imutável, essência real ou alma.

Fora dessas três características não é ensinamento budista. T'ien-t'ai ainda considera os três selos como uma unidade, sendo inseparáveis um do outro. Assim, além de estarem espalhados por toda a literatura budista, os Selos do Dharma também estão perfeitamente agrupados em alguns textos, dentre eles, o Ekottara Agama, o Capítulo IX do Abhidamma ou no belíssimo exemplo que segue:
"'Todas as coisas compostas são impermanentes.'
Tão logo alguém vê isto com sabedoria,
Então do sofrimento ele se enfastia; este é o Caminho da Purificação.
'Todas as coisas são insatisfatórias.'
Tão logo alguém vê isto com sabedoria,
Então do sofrimento ele se enfastia; este é o Caminho da Purificação.
'Todas as constituições mentais são insubstanciais.'
Tão logo alguém vê isto com sabedoria,
Então do sofrimento ele se enfastia; este é o Caminho da Purificação."
(Dhammapada c.XX Do Caminho. v.277-279)
E é através da compreensão dessas três características, desses três selos que, se entra na corrente que guia ao fim do sofrimento, angústia e medo, ao Nirvana.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Joia Valiosa



Certa vez, um homem entrou na casa de um amigo e esse amigo, enquanto ele estava descuidado ou dormindo, amarrou na franja de sua vestimenta uma joia de valor incalculável feita de pedras preciosas, pensando: "Que esta joia feita de pedras preciosas seja para ele!" Então, aquele homem, levantando-se de seu assento partiu. E ele chegou a outra região do país. Ali teve dificuldades, encontrou dificuldades na busca de comida e vestimenta e com grande esforço de alguma maneira conseguia algum alimento e com ele estava satisfeito, contente, feliz.

Então, o antigo amigo desse homem, que havia atado aquela joia de valor inestimável feita de pedras preciosas na franja de sua vestimenta, voltou a vê-lo e lhe disse o seguinte: "Por que tu, ó amigo, encontras dificuldades na busca de comida e vestimenta, quando eu, ó amigo, para que vivesses feliz, amarrei na franja de sua vestimenta uma joia de valor inestimável feita de pedras preciosas capaz de favorecer todos os seus desejos?

Ó amigo, dei-te aquela joia minha feita de pedras preciosas. Eu a amarrei, ó amigo, aquela joia feita de pedras preciosas na franja de tua vestimenta. E tu na verdade não refletiste, ó amigo: "Que coisas amarraram na minha roupa?" ou "Quem amarrou isso?" ou "Qual é a causa ou por que razão amarraram isso?"

Ó amigo, és um néscio tu que, buscando dificultosamente comida e vestimenta, ficaste satisfeito. Vai, ó amigo, para a grande cidade levando essa joia feita de pedras preciosas e, lá chegando, troca-a por dinheiro. E com esse dinheiro faze todas as coisas que podem ser feitas com ele".

Sutra do Lótus capítulo VIII K210-K211

Obviamente o texto usa de metáfora para reiterar uma verdade suprema: a natureza búdica que, mesmo dentro nós, raramente é percebida.

A natureza búdica nada mais é do que a própria Iluminação latente, a verdadeira natureza da realidade; responsável pela quebra das incessantes buscas egoístas, por botar fim aos ciclos de renascimentos e por conceder a tranquilidade da cessação do sofrimento (santam nirvanam).

Revelar a natureza búdica está representada nesta passagem do Sutra de Lótus como o aperceber-se de uma felicidade que transcende ao conceito do senso comum (o homem se considerava feliz comendo as migalhas e se vestindo com trapos). A real felicidade não está em fatores externos, longínquos, difíceis de acessar; todo o necessário já está conosco, ou seja, a pedra preciosa da budeidade já está bordada em nossa mente, basta localizá-la e usufruir de seu poder.