O Budismo não é algo retrógrado. Engana-se quem julga que a Iluminação é uma utopia, ou apenas um mito. Engana-se quem pensa que é uma religião apenas para ermitões celibatários. Um exemplo claro de que a Iluminação não se restringe aos que seguem carreira monástica está no Sutra de Vimalakirti. Neste Sutra, um leigo Budista, cidadão de Vaisali, que trabalhava e tinha família, demonstra ter conhecimentos avançados no Dharma e prática irrepreensível nos ensinamentos de Buda de tal maneira a superar e constranger até mesmo os considerados mais entendidos e experientes. Muitos discípulos diretos de Shakyamuni, monges e até Bodhisattvas aparecem em cena em diálogo com o protagonista. Sua lúcida eloquência, com seus paradoxos enigmáticos, humor incisivo e ironia cáustica, esmaga seus interlocutores.

Baseando-se em alguns Sutras (referenciados no fim deste artigo), especialmente no Sutra de Vimalakirti, e também em alguns filósofos que compreenderam o espírito do Dharma, este artigo pretende orientar Budistas contemporâneos a buscarem corretamente a Iluminação, mesmo em meio à vida agitada e degenerada dos nossos dias.
“Naquele altura, vivia na grande cidade de Vaisali um certo Licchavi, conhecido pelo nome de Vimalakirti. Tendo servido antigos Budas, tinha gerado as raízes da virtude, honrando-os e fazendo-lhes oferecimentos. Ele tinha alcançado tolerância assim como também eloquência. Praticou a Perfeição da Sabedoria. Tinha atingido o poder dos encantamentos e do não temor. Tinha conquistado todos os demônios e oponentes. Tinha penetrado o modo profundo do Dharma. Era libertado pela transcendência da sabedoria. Tendo integrado a sua realização com a destreza na técnica de libertação, ele era especialista sabendo os pensamentos e acusações dos seres vivos. Sabendo a força ou fraqueza das faculdades deles, e sendo talentoso com eloquência sem rival, ele ensinou o Dharma adequadamente a cada um. Tendo-se aplicado energicamente ao Mahayana, entendeu e realizou as suas tarefas com grande subtileza. Viveu com o comportamento de um Buda, e a sua inteligência superior era tão grande quanto um oceano. Era elogiado, honrado, e recomendado por todos os Budas, respeitado por Indra, Brahma, e todos os Lokapalas. Para desenvolver os seres vivos com a sua habilidade na técnica de libertação, ele vivia na grande cidade de Vaisali.”
Sutra de Vimalakirti – Capítulo 1
Vimalakirti era um cidadão rico de Vaisali (atual Bsarh), seu nome significa “aquele que tem fama sem nódoas”. O Sutra que leva seu nome, de forma geral, aconselha ao aspirante pela Iluminação uma série de medidas, a maioria, senão todas, associadas com a visualização de uma realidade além de bem e mal e além da aparente relação entre entes substanciais, incentivando a perspectiva do vazio – shunya. Um ente substancial pode ser entendido como algo que possua uma realidade objetiva que permanece imutável. Segundo Aristóteles, é o suporte ou substrato pelo qual a matéria se constitui em algo seguindo uma forma. O filósofo divide a substância em duas:
A substância primeira refere-se aos seres particulares, individuais, realmente existentes, na qual podemos ter sensações (referência imediata). Já a substância segunda refere-se aos universais abstraídos dos indivíduos (por isso são referências mediadas pelo pensamento, pelo raciocínio). Sua existência depende dos indivíduos, que são classificados em gêneros e espécies. A substância é sempre sujeito, isto é, aquilo do que se fala, do que se atribui.
De acordo com Descartes, o termo substância significa aquilo que permanece constante depois de toda e qualquer transformação. Como, por ilustração, é sabido empiricamente que a substância água permanece água em seus três estados físicos ou como alguém chamado João continua sendo a mesma pessoa desde a infância à velhice (o João não se transforma em Pedro no decorrer da vida, por exemplo).
A filosofia do vazio defende o ponto de vista da não dualidade, fundamentando-se a partir da impossibilidade de traçar distinções nítidas e inequívocas entre as coisas despidas de ser próprio. Com relação à realidade mais alta, não se pode dizer que existe “a coisa em si mesma” (não existe substância). Assim como as coisas, as palavras, as percepções comuns, os julgamentos e até a cognição são desprovidos de realidade objetiva. A perspectiva substancial classifica o entes como separados do todo; não considera o vazio que a tudo permeia. Desta forma, ignora que a manifestação da realidade se desenrola segundo fenômenos condicionados e interdependentes que fazem parte de um único organismo, o Universo. Somente ao deparar-se com o vazio que a consciência pode perceber a não existência de substratos em si mesmos (nada permanece constante, como disse Heráclito, é impossível uma mesma pessoa atravessar o mesmo rios duas vezes). Uma vez que este desvelamento da consciência vai retirando todas as camadas ilusórias, uma nova consciência autônoma, livre de opressões e apegos é construída.
Eternalismo e Niilismo
Uma consciência autônoma não acata de imediato conceitos ordinariamente considerados óbvios ou verdadeiros difundidos pela cultura, ciência ou religião, sem antes debruçar-se sobre estes conceitos e colocá-los à luz dos Ensinamentos de Shakyamuni. Para o Budista, por exemplo, não há espaço para uma interpretação eternalista da realidade. O eternalismo aprisiona a mente numa relação de dependência e esperança alucinatória, que pode vir a se tornar angústia. A crença em uma entidade divina e eterna se dá pela necessidade humana de precisar de um propósito e para o alívio de sua dor perante a finitude. Tal mentira confortável, distorce toda e qualquer reflexão séria sobre a morte e a impermanência, agindo como um empecilho à Iluminação.
“Na realidade, o teísmo não é produto do conhecimento, mas sim da vontade(...) a necessidade constante, que ora oprime com força, ora abala com violência o coração (a vontade) do homem e o mantém continuamente em estado de temor e esperança, enquanto as coisas que ele teme e espera não estão em seu poder; e até a conexão das correntes causais, às quais essas coisas são conduzidas, só podem se alcançadas um pouco mais além de seu conhecimento. Essa necessidade, esse temor e essa esperança constantes induzem-no a efetuar a hipóstase de seres pessoais, dos quais tudo dependeria. Desses se pode supor que, como outras pessoas, serão suscetíveis de pedidos e adulações, serviço e dádiva e, portanto, de serem mais tratáveis do que a inflexível necessidade, as forças inexoráveis e insensíveis da natureza e os misteriosos poderes do curso do mundo.”
Fragmentos Sobre a Historia da Filosofia – Schopenhauer. Editora: Iluminuras, 2003 – p. 105-106.
O medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um consequente desespero diante da possibilidade de vir a “perder tudo” com a morte. No Budismo, assim como na filosofia grega antiga, o desapego é condição essencial para uma “boa morte”. Filosofar é aprender a morrer – dizia Platão. Na morte, não podemos levar nada conosco. Nem dinheiro, nem bens, nem diplomas, nem status. Eis aqui um paradoxo: para livrar-se do temor do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.
A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das cláusulas. Todos estamos submetidos às regras deste “jogo”, apesar de não termos escolhido participar dele. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência, que determinam o seu próprio término. Lutar contra esse fato é uma luta inglória, uma inexorável garantia de dor. Ao contrário, aceitar a transitoriedade desta condição ajuda a encararmos o sofrimento que a ideia da morte costuma trazer. Ninguém pode mudar o fato de que a vida vai acabar um dia.
O Budismo certamente recomenda que tenhamos uma vida saudável a fim de alcançarmos maior longevidade para que, assim, tenhamos mais tempo na prática do Dharma. Entretanto, a fixação pelo padrão jovem como metáfora de vida saudável, teme excessivamente a velhice e se obstina pela utópica eterna juventude. Há nesse comportamento uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, acumulações, os valores da sociedade e de consumo são antagônicos à ideia de morte. O imediatismo impera! O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a serenidade e a felicidade não no autoconhecimento, mas em fugas da realidade indiscutível de que um dia deixaremos de existir. O Budista deve empenhar-se em práticas específicas de preparação para a morte. Uma delas é a meditação, que tem por objetivo contemplar a Verdade e a Vacuidade, domar a mente, a ansiedade e as emoções prejudiciais.
Em contrapartida, o extremo oposto ao eternalismo também é uma ilusão. O niilismo, que pode ser definido como uma desvalorização e aniquilação do sentido, causando a ausência de finalidade e de resposta aos “porquês”; considera a existência como mera relação psicofísica que é totalmente aniquilada sem nenhuma consequência restante após a morte. Esta concepção implica em uma doença hedonista, abrindo as portas para o embotamento da consciência e a total negação de suas relações com o todo. Os valores tradicionais depreciam-se e os "princípios e critérios absolutos dissolvem-se". As verdades e os valores tradicionais se despedaçam, tornando-se difícil prosseguir no Caminho da Iluminação.
Renunciar ao eternalismo não significa abraçar o niilismo. A vida não é um vale-tudo, ou seja, não se pode abrir mão de fundamentos, verdades, critérios absolutos ou universais. Portanto, não há como nos isentarmos da responsabilidade pelos nossos atos e o fato de não termos uma alma eterna não implica necessariamente que esta vida não tenha um “objetivo” que valha a pena ser perseguido.
Este antagonismo entre vida e morte se mantém dentro de cada um de nós, é um jogo constante entre dois lados de uma mesma moeda. Focar-se em um dos lados e desprezar o outro consiste em perder-se em um dualismo. Vida e Morte ocorrem concomitantemente; logo precisam ser encaradas como produtos de um único e mesmo fenômeno.