Pesquisa

Mostrando postagens com marcador Vegetarianismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vegetarianismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de dezembro de 2014

Feliz Natal?

Acabei de voltar do supermercado. Fiquei pensando sobre todo aquele discurso sobre paz, amor... Te faço um convite a uma reflexão simples. Em quais das fotos o coração deve transbordar em amor, alegria e paz?

“Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor.” Pitágoras










sábado, 13 de dezembro de 2014

Iluminação no Século 21


O Budismo não é algo retrógrado. Engana-se quem julga que a Iluminação é uma utopia, ou apenas um mito. Engana-se quem pensa que é uma religião apenas para ermitões celibatários. Um exemplo claro de que a Iluminação não se restringe aos que seguem carreira monástica está no Sutra de Vimalakirti. Neste Sutra, um leigo Budista, cidadão de Vaisali, que trabalhava e tinha família, demonstra ter conhecimentos avançados no Dharma e prática irrepreensível nos ensinamentos de Buda de tal maneira a superar e constranger até mesmo os considerados mais entendidos e experientes. Muitos discípulos diretos de Shakyamuni, monges e até Bodhisattvas aparecem em cena em diálogo com o protagonista. Sua lúcida eloquência, com seus paradoxos enigmáticos, humor incisivo e ironia cáustica, esmaga seus interlocutores.


Baseando-se em alguns Sutras (referenciados no fim deste artigo), especialmente no Sutra de Vimalakirti, e também em alguns filósofos que compreenderam o espírito do Dharma, este artigo pretende orientar Budistas contemporâneos a buscarem corretamente a Iluminação, mesmo em meio à vida agitada e degenerada dos nossos dias.

“Naquele altura, vivia na grande cidade de Vaisali um certo Licchavi, conhecido pelo nome de Vimalakirti. Tendo servido antigos Budas, tinha gerado as raízes da virtude, honrando-os e fazendo-lhes oferecimentos. Ele tinha alcançado tolerância assim como também eloquência. Praticou a Perfeição da Sabedoria. Tinha atingido o poder dos encantamentos e do não temor. Tinha conquistado todos os demônios e oponentes. Tinha penetrado o modo profundo do Dharma. Era libertado pela transcendência da sabedoria. Tendo integrado a sua realização com a destreza na técnica de libertação, ele era especialista sabendo os pensamentos e acusações dos seres vivos. Sabendo a força ou fraqueza das faculdades deles, e sendo talentoso com eloquência sem rival, ele ensinou o Dharma adequadamente a cada um. Tendo-se aplicado energicamente ao Mahayana, entendeu e realizou as suas tarefas com grande subtileza. Viveu com o comportamento de um Buda, e a sua inteligência superior era tão grande quanto um oceano. Era elogiado, honrado, e recomendado por todos os Budas, respeitado por Indra, Brahma, e todos os Lokapalas. Para desenvolver os seres vivos com a sua habilidade na técnica de libertação, ele vivia na grande cidade de Vaisali.”
Sutra de Vimalakirti – Capítulo 1

Vimalakirti

Vimalakirti era um cidadão rico de Vaisali (atual Bsarh), seu nome significa “aquele que tem fama sem nódoas”. O Sutra que leva seu nome, de forma geral, aconselha ao aspirante pela Iluminação uma série de medidas, a maioria, senão todas, associadas com a visualização de uma realidade além de bem e mal e além da aparente relação entre entes substanciais, incentivando a perspectiva do vazio – shunya. Um ente substancial pode ser entendido como algo que possua uma realidade objetiva que permanece imutável. Segundo Aristóteles, é o suporte ou substrato pelo qual a matéria se constitui em algo seguindo uma forma. O filósofo divide a substância em duas:

A substância primeira refere-se aos seres particulares, individuais, realmente existentes, na qual podemos ter sensações (referência imediata). Já a substância segunda refere-se aos universais abstraídos dos indivíduos (por isso são referências mediadas pelo pensamento, pelo raciocínio). Sua existência depende dos indivíduos, que são classificados em gêneros e espécies. A substância é sempre sujeito, isto é, aquilo do que se fala, do que se atribui.

De acordo com Descartes, o termo substância significa aquilo que permanece constante depois de toda e qualquer transformação. Como, por ilustração, é sabido empiricamente que a substância água permanece água em seus três estados físicos ou como alguém chamado João continua sendo a mesma pessoa desde a infância à velhice (o João não se transforma em Pedro no decorrer da vida, por exemplo).

A filosofia do vazio defende o ponto de vista da não dualidade, fundamentando-se a partir da impossibilidade de traçar distinções nítidas e inequívocas entre as coisas despidas de ser próprio. Com relação à realidade mais alta, não se pode dizer que existe “a coisa em si mesma” (não existe substância). Assim como as coisas, as palavras, as percepções comuns, os julgamentos e até a cognição são desprovidos de realidade objetiva. A perspectiva substancial classifica o entes como separados do todo; não considera o vazio que a tudo permeia. Desta forma, ignora que a manifestação da realidade se desenrola segundo fenômenos condicionados e interdependentes que fazem parte de um único organismo, o Universo. Somente ao deparar-se com o vazio que a consciência pode perceber a não existência de substratos em si mesmos (nada permanece constante, como disse Heráclito, é impossível uma mesma pessoa atravessar o mesmo rios duas vezes). Uma vez que este desvelamento da consciência vai retirando todas as camadas ilusórias, uma nova consciência autônoma, livre de opressões e apegos é construída.

Eternalismo e Niilismo

Uma consciência autônoma não acata de imediato conceitos ordinariamente considerados óbvios ou verdadeiros difundidos pela cultura, ciência ou religião, sem antes debruçar-se sobre estes conceitos e colocá-los à luz dos Ensinamentos de Shakyamuni. Para o Budista, por exemplo, não há espaço para uma interpretação eternalista da realidade. O eternalismo aprisiona a mente numa relação de dependência e esperança alucinatória, que pode vir a se tornar angústia. A crença em uma entidade divina e eterna se dá pela necessidade humana de precisar de um propósito e para o alívio de sua dor perante a finitude. Tal mentira confortável, distorce toda e qualquer reflexão séria sobre a morte e a impermanência, agindo como um empecilho à Iluminação.

“Na realidade, o teísmo não é produto do conhecimento, mas sim da vontade(...) a necessidade constante, que ora oprime com força, ora abala com violência o coração (a vontade) do homem e o mantém continuamente em estado de temor e esperança, enquanto as coisas que ele teme e espera não estão em seu poder; e até a conexão das correntes causais, às quais essas coisas são conduzidas, só podem se alcançadas um pouco mais além de seu conhecimento. Essa necessidade, esse temor e essa esperança constantes induzem-no a efetuar a hipóstase de seres pessoais, dos quais tudo dependeria. Desses se pode supor que, como outras pessoas, serão suscetíveis de pedidos e adulações, serviço e dádiva e, portanto, de serem mais tratáveis do que a inflexível necessidade, as forças inexoráveis e insensíveis da natureza e os misteriosos poderes do curso do mundo.”

Fragmentos Sobre a Historia da Filosofia – Schopenhauer. Editora: Iluminuras, 2003 – p. 105-106.

O medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um consequente desespero diante da possibilidade de vir a “perder tudo” com a morte. No Budismo, assim como na filosofia grega antiga, o desapego é condição essencial para uma “boa morte”. Filosofar é aprender a morrer – dizia Platão. Na morte, não podemos levar nada conosco. Nem dinheiro, nem bens, nem diplomas, nem status. Eis aqui um paradoxo: para livrar-se do temor do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.

A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das cláusulas. Todos estamos submetidos às regras deste “jogo”, apesar de não termos escolhido participar dele. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência, que determinam o seu próprio término. Lutar contra esse fato é uma luta inglória, uma inexorável garantia de dor. Ao contrário, aceitar a transitoriedade desta condição ajuda a encararmos o sofrimento que a ideia da morte costuma trazer. Ninguém pode mudar o fato de que a vida vai acabar um dia.

O Budismo certamente recomenda que tenhamos uma vida saudável a fim de alcançarmos maior longevidade para que, assim, tenhamos mais tempo na prática do Dharma. Entretanto, a fixação pelo padrão jovem como metáfora de vida saudável, teme excessivamente a velhice e se obstina pela utópica eterna juventude. Há nesse comportamento uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, acumulações, os valores da sociedade e de consumo são antagônicos à ideia de morte. O imediatismo impera! O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a serenidade e a felicidade não no autoconhecimento, mas em fugas da realidade indiscutível de que um dia deixaremos de existir. O Budista deve empenhar-se em práticas específicas de preparação para a morte. Uma delas é a meditação, que tem por objetivo contemplar a Verdade e a Vacuidade, domar a mente, a ansiedade e as emoções prejudiciais.

Em contrapartida, o extremo oposto ao eternalismo também é uma ilusão. O niilismo, que pode ser definido como uma desvalorização e aniquilação do sentido, causando a ausência de finalidade e de resposta aos “porquês”; considera a existência como mera relação psicofísica que é totalmente aniquilada sem nenhuma consequência restante após a morte. Esta concepção implica em uma doença hedonista, abrindo as portas para o embotamento da consciência e a total negação de suas relações com o todo. Os valores tradicionais depreciam-se e os "princípios e critérios absolutos dissolvem-se". As verdades e os valores tradicionais se despedaçam, tornando-se difícil prosseguir no Caminho da Iluminação.

Renunciar ao eternalismo não significa abraçar o niilismo. A vida não é um vale-tudo, ou seja, não se pode abrir mão de fundamentos, verdades, critérios absolutos ou universais. Portanto, não há como nos isentarmos da responsabilidade pelos nossos atos e o fato de não termos uma alma eterna não implica necessariamente que esta vida não tenha um “objetivo” que valha a pena ser perseguido.
Este antagonismo entre vida e morte se mantém dentro de cada um de nós, é um jogo constante entre dois lados de uma mesma moeda. Focar-se em um dos lados e desprezar o outro consiste em perder-se em um dualismo. Vida e Morte ocorrem concomitantemente; logo precisam ser encaradas como produtos de um único e mesmo fenômeno.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Buda morreu comendo porco? [artigo traduzido]

Traz algumas informações interessantes. Para aqueles que não conhecem a história, há uma divergência de opiniões sobre a morte do Buda. A literatura diz que ele morreu depois de fortes dores estomacais e diarreias, e alguns afirmam que isso aconteceu por comer um guisado de carne de porco. Se baseando também nisso, sustentam que o Buda comeu carne ou que permitiu isso no fim de sua vida. Contudo, pesquisas - já faz bastante tempo - demonstram que essa afirmação é perversa e é fruto de um erro de tradução.

Upasaka Pundarikakarna

. . .

O Buda morreu comendo porco?
Waley, Arthur
Melanges Chinois et bouddhiques (vol 1931-1932, p.343-354)

Qualquer um que tenha interesse na história do Budismo é levado a perguntar de tempos em tempos se seria verdade que o Buda morreu comendo porco. A ideia de que ele poderia tê-lo feito então vem como uma surpresa para a maior parte dos europeus; já que estamos acostumados a associar vegetarianismo como parte intrínseca do Budismo. Questionadores com uma curvatura de espírito iconoclasta estão ansiosos para confirmar que Buda foi algo bem diferente do convencional homem santo, forte e ao mesmo tempo pouco pretensioso, enquanto aqueles que têm valorizado a figura de Gautama, o santo, imune a todo apetite e desejo mundano, estão preocupados com uma autoridade segura para a interpretação figurativa da passagem sobre o comer porco[1].

A facilidade com que essa pergunta é respondida depende da extensão das pesquisas do informante. Considerando apenas a própria passagem e unicamente do ponto de vista do Budismo Páli, eu creio que qualquer um não influenciado por pré-concepções românticas sobre a personalidade do Buda pode chegar à conclusão[2] de que as palavras suukara-maddava (macio como porco) são para ser tomadas literalmente.

O quanto antes, contudo, alguém estudar a questão por um aspecto mais amplo e, levando em consideração que os igualmente iniciais[3] documentos hinayana chineses traçam a história da atitude budista em relação ao consumo de carne, toda a questão se torna infinitamente mais complicada e uma resposta confiável torna-se longe de ser fácil de oferecer.

A história da ultima refeição do Buda, como é contada no Sutra Mahaparinibbana (Sutra da Grande Extinção) é bem resumida por E. J. Thomas[4]. Em Pava, Buda esteve no mangueiral do bosque do ferreiro Cunda. Lá, Cunda ofereceu uma refeição de comida excelente, em parte firme e em parte macia, com uma grande quantidade de suukara-maddava. Antes da refeição Buda disse, “Sirva-me Cunda, com o suukara-maddava que você preparou, e sirva com os outros alimentos mais firmes e mais macios.” E assim Cunda fez, e depois da refeição Buda disse-lhe para jogar o restante do suukara-maddava dentro de um buraco, pois percebeu que ninguém mais no mundo poderia digerí-lo além do Tathagata[5]. Veio uma doença aguda, com sangue vertente e violentas dores mortíferas, mas Buda conscientemente as controlou... e foi levado para Kusinara.

A palavra Suukara-Maddava não ocorre em nenhum outro lugar (exceto em discussões sobre essa passagem) e o radical -maddava é passível de pelo menos quatro interpretações. Considerando que venha da raiz de MRD 'macio', cognata com o latim 'mollis', é ainda ambíguo, pois ainda pode significar “partes macias de um porco' ou 'comida macia de porco', ou seja, comida da qual porcos se alimentam.[6] Mas pode ainda vir da mesma raiz de 'moinho' e significar “amassado por porcos”, ou seja “pisado por porcos”. Ainda há um outro significado semelhante a “satisfazer” e, como veremos abaixo um estudioso supôs a existência de um vegetal chamado 'deleite de porcos'.

A questão de se Buda comeu ou não porco, naturalmente se apresentou tanto para a mente leiga como teológica. Na realidade, contudo, nenhum ponto teológico está envolvido. Mesmo especialistas têm compreendido muito imperfeitamente que na história tardia do Budismo, o comer carne seria permitido, sob determinadas circunstâncias extremamente excepcionais. O monge Budista deve abster-se de comer carne se ele 'souber, ouvir ou suspeitar' de que ela teria sido morta especialmente para ele[7]. A atitude permitida era muito rara; por exemplo, era considerado errado para um monge ir a uma casa específica e pedir comida, a menos que ele estivesse doente. Mas ele poderia se o dono da casa dissesse a ele 'há algo mais que você queira pedir?'

Então não era, por conseguinte, no mínimo surpreendente que no comentário do Digha-nikaya sobre a ultima refeição do Buda, Buddhaghosha (início do século V) tenha sido conciso ao tomar sukara-maddava como significando porco. Mas o comentário do Udana[8], ao lidar com essa passagem diz: sukara-maddava no Grande Comentário[9] afirma ter sido carne de porco preparada macia e bem oleosa; mas alguns dizem que não seria carne de porco, mas um broto que era pisado por porcos; outros ainda que era um cogumelo que crescia num lugar pisado por porcos; ou ainda tomar isso num sentido de ter o sabor parecido.

Uma primeira impressão ao ler tais explicações 'vegetarianas' é que são puro sofisma, datados de um tempo quando a ideia do Buda comendo carne ter sido tão inaceitável que os comentaristas se viam obrigados a torcer de toda forma o significado da passagem para outro sentido.

Se nenhum outro vegetal com o nome semelhante existiu, então seria quase certo que a explicação do 'cogumelo' seria mera fantasia. Mas Neumann[10] tem mostrado que em Narahari, Rajanigha, dentre os nomes de plantas medicinais, ocorre toda uma série de palavras compostas por 'porco' como primeiro elemento; como sukara-kanda, 'bulbo de porco'; sukara paadika, 'pé de porco'; sukareshta, 'procurado por porcos'. Numa analogia com o passado Neumann é inclinado a tomar sukaramadava como significando 'deleite de porcos' e assume que seria o nome de algum tipo de trufa.

Parece-me que filologicamente, a visão de Neumann tinha muito a dizer mas não foi suficientemente levada em consideração. Parece perfeitamente concebível que os comentaristas que suspeitaram da 'explicação' da expressão 'porco' estavam realmente melhor informados do que Buddhaghosha. Nomes de plantas tendem a ser locais e relacionadas com dialetos. É bastante provável que uma tal expressão como sukara-maddava signifique 'trufa' em Maghada e isso pode, nos centros mais ocidentais e orientais onde o budismo Pali veio a existir, ter sido inteiramente desconhecido e consequentemente mal compreendido.

Infelizmente o termo, tal como é conhecido, ocorre unicamente nessa passagem e em discussões sobre ele. Nenhuma expressão correspondente em Sânscrito parece existir.

Os Documentos do Hinayana Chinês

O relato do falecimento do Buda ocorre no segundo livro do Dirghagama[11]. Tal versão foi traduzida em 412-413 e é, portanto, contemporânea a Buddhaghosha. Ele apóia a teoria 'vegetariana'. Cunda preparou 'um guisado separado de orelhas de madeira que nascem na árvore de sândalo, que o mundo estima como grandes em delicadeza.' 'Orelha de madeira' ainda é uma palavra corrente em chinês para cogumelos que crescem no tronco de árvores. Fragmentos do Dirghagama em sânscrito ainda existem, mas infelizmente não nessa passagem. Presume-se que a frase sânscrita na capa do tradutor chinês seja Candana ahicchatraka, candanachattra ou algo assim.

Há quatro outras versões do 'Sutra da Grande Extinção', a saber.
1.       Nanjio 552, traduzido em 290-306 por Po Fa-tsu.
2.       Nanjio 119, tradutor desconhecido.
3.       Nanjio 118, falsamente atribuidos a Fa-hsien.
4.       Uma longa passagem[12] no Kshurakavastu do Mulasarvastivada Vinaya (traduzido no ano de 710).

Em nenhum desses trabalhos a natureza da comida que Cunda ofereceu é especificada. A passagem é citada no 'Questões de Milinda' (mais ou menos 175); mas em uma seção que que também está faltando nas versões chinesas.

A ideia então, de que o Buda tenha comido carne de porco é completamente ausente do Cânone Chinês e pode nunca ter sequer entrado na cabeça de qualquer budista do extremo oriente até que as escrituras Páli começaram a ser estudadas no fim do século XIX.

Houve, realmente, uma outra ocasião[13] quando o buda aceitou oferta similar. O chefe de família Ugga trouxe alguns sukaramamsa. Aqui novamente o cânone chinês nos falha, pois tal sutra não existe no Ekotaragama ou em qualquer outro lugar. Ninguém, eu penso, jamais sugeriu que sukaramamsa (carne de porco) não signifique realmente porco.

Tudo que foi dito até agora se aplica somente ao Hinayana. Do ponto de vista Mahayana não é apenas uma questão filológica, mas também uma questão de moralidade que está envolvida; pois para o que nos é bem conhecido das principais escrituras Mahayana, todas proíbem completamente o consumo de carne.

Os primeiros trabalhos contendo tal proibição[14] são o Sutra Mahaparinirvana, uma remodelação do Sutra da Grande Extinção. Quando Fa-hsien visitou a Índia no século V, ele encontrou todo o meio do país (Madhyadesa, ou seja, Magadha e partes circundantes) 'de pessoas que se abstinham de tomar vidas. Não bebiam vinho nem comiam cebolas ou alho... eles não criam porcos ou aves, nem vendem alimento animal'[15].

Quando Fa-hsien perguntou qual autoridade escritural foi usada para tal proibição absoluta de carne, sem dúvida alguma o Sutra Mahaparinirvana foi citado. E certamente que Fa-hsien teve particular interesse nesse sutra, pois adquiriu uma cópia para si em Pataliputra e foi essa versão que traduziu para o chinês em 417 EC.

Qual foi a origem dessa nova visão sobre a alimentação com carne, o que parece ter surgido em algum lugar por volta do século III?

Uma explicação que me ocorre é a que segue: Os reis Gupta, que neste período reinaram por toda região média do país toleravam o Budismo e às vezes prestavam suporte, eram eles adoradores de Vishnu. Agora, o ascetismo Vaishnava afirma que “deve-se abster de todo tipo de comida de origem animal'[16] e isso pode naturalmente ter ocorrido aos Budistas de dizer 'se mesmo os equivocados Hindus se abstêm da carne, quanto menos devemos nós...' ou algo desse tipo. Tal hipótese encontra confirmação completa no Sutra Lankavatara[17], um trabalho mais tardio do que o Mahaparinirvana: 

'Se mesmo os infiéis em seus tratados heréticos e os Lokayatikas em seus ensinos mundanos e aqueles que caem no erro de considerar os fenômenos quer como permanentes ou como sem duração, como existentes ou não existentes, mesmo tais pessoas proíbem o uso de carne...' 
E novamente[18]: 'Mesmo magos seculares se abstêm de carne, sabendo que disso depende o sucesso de seu desempenho; quanto mais os meus discípulos na busca do supremo caminho espiritual do Tathagata...' etc.

O Lankavatara tem, de fato, um capítulo especial[19] (Mamsabhakshana) que lida com a proibição da carne. Para justificar tal proibição, ele se refere a cinco sutras[20]: o Angulimata, o Mahanegha, o Srimala, o Hastikakshya e o Mahaparinirvana.

O primeiro é o bem conhecido sutra Hinayana e em sua forma inicial[21], é claro que não contém tal proibição. Ela existe, contudo, numa forma expandida Mahayana e em uma passagem[22] que diz que 'os Budas não comem carne'. A segunda (traduzida em 414-421) contem uma referência muito indefinida[23] para a questão.

A terceira não contém nenhuma referência ao assunto, e é, obviamente citada por engano com o Angulimala. A quarta[24] meramente diz que a eficácia da recitação do fim do sutra depende da abstenção de carne.

É evidente que no tempo em que o Lankavatara foi composto, o Mahaparinirnava era a única escritura que definitivamente proibia a alimentação com carne. Quando então, o Mahayana por si próprio produziu seu conjunto de regras monásticas, teve autoridade para impor o completo vegetarianismo. E de fato, Fan-wang Ching[25], que budistas do extremo oriente considera como a fundação de suas regras monásticas, o comer carne, não como uma falta grave, mas como uma das quarenta e oito 'degenerações leves'. Isso é considerado menos grave do que, por exemplo, perder o controle.

Mas voltando à questão da última refeição do Buda, vimos que filologicamente não há razão pela qual sukara-madava não ser realmente o nome de uma raiz ou cogumelo. E certos de que esse era o significado original, é bastante compreensível que depois que o centro do Budismo se deslocou do oeste para o sul[26], seu sentido original pode ter se perdido.

Se o Budismo Hinayana via o consumo de carne com horror, os comentadores dos sutras encontrariam-se numa posição desconfortável. Realmente, contudo, não tiveram (como podemos ver) nenhum preconceito e foi relativamente fácil para eles aceitar o termo sukara-maddava como carne de porco. Os 'outros comentadores' que mantiveram que foi preparado um vegetal, mantinham tal hipóteses não como teólogos desonestos, mas meramente como pessoas que vieram de alguma parte da India onde o termo sukara-maddava no sentido de um vegetal ainda era corrente. Eu desconheço qualquer argumento que pode tornar tal hipótese insustentável.

A alternativa é supor que, apesar de não haver nenhum trabalho Hinayana que contenha qualquer proibição geral da alimentação por carne, o sentimento em favor do vegetarianismo, que prevalecia no mundo[27], afetou tanto o budismo Hinayana quanto o Mahayana, com o resultado de que certos comentadores se chocaram com a ideia do Buda comer carne de porco e criaram uma fantasiosa interpretação para a passagem. O mesmo sentimento, deve-se supor, é responsável pela substituição do cogumelo pelo porco na versão chinesa.

Creio que a segunda teoria envolve muito mais suposições infundadas do que a primeira. Mas no estado atual de nosso conhecimento, ambas me parecem razoáveis. O interesse no questionamento acima, apesar de seu resultado negativo, reside na imagem oferecida do método pelo qual o Budismo se adaptou à correntes de pensamento e sentimento em completo contraste com o Cristianismo. Sempre, sob influência de um ambiente novo ou pensamento criativo individual, os budistas eram atraídos por um novo ponto de vista, eles sentiam necessidade de investir nesse ponto de vista com alguma autoridade escrita. Assim, desde que a religião tornou-se um organismo vivo, suas escrituras continuaram a se expandir e o Tripitaka em sua forma Hinayana e Mahayana são em si próprios uma história do Budismo. Tal método, que implica na capacidade crítica do fiel tornando-a tão ilimitada que eles estarão a qualquer momento aptos a aceitar um documento moderno e recém-descoberto ensinando sobre o Fundador, não seria possível no ocidente. Ao invés disso, a igreja Cristã foi forçada a adotar complicadas interpretações metafóricas das escrituras, particularmente do Velho Testamento, mas teve (desde um período muito antigo) escrupulosamente evitado a política de expansão e interpolação que produziu a riqueza do Tripitaka. Assim, enquanto no ocidente há os trabalhos dos teólogos aos quais devemos nos voltar se quisermos estudar as sucessivas fases do Cristianismo, no budismo todo o processo de desenvolvimento reside aberto perante a nós nas próprias escrituras.

O método ocidental tem suas vantagens. É fácil considerar os teólogos do passado como passíveis de falha. No Budismo, ao contrário de sucessivos estágios de doutrina, muitas vezes incompatíveis com o que veio antes, são expostas nas escrituras o que todos afirmam por igual direito serem as verdadeiras palavras do Buda. Divergências encontradas, inadequações eram resolvidas sustentando que as escrituras tardias foram misteriosamente deixadas em suspensão até que o mundo estivesse apto a recebê-las.

Em um caso como o que tenho discutido, o tipo de explanação não seria muito convincente e não é de se estranhar que o grande biógrafo budista e compilador Tao-hsuan (596-667), que fundou uma vertente que baseia seu ensino no Vinaya, envergonhou-se do fato de que essa parte das escrituras dizia que comer carne (considerado pelos Budistas do século VII como algo horrendo) era algo mais do que definitivamente permitido. Felizmente a dificuldade foi resolvida por uma visão em que uma profecia[28] era revelada a ele, para o efeito que nos dias degenerados, muito tempo após a morte do Buda, haveria monges que, encontrando suporte nas passagens das escrituras Hinayana, desvirtuariam o significado do Vinaya e fingiriam que o Buda permitiu aos monges se alimentar de carne. 'Naqueles dias, os monges em seus templos assassinarão seres vivos, fazendo dos lugares em que vivem em nada melhores do que um lar de caçadores e açougueiros.'




[1]    Mahaaparinibbaana-sutta(Diighanikaaya 16). Traduzido em Dilogues of the Buddha II, 137.
[2]    Como recentemente os editores do dicionário da Pali Text Society têm feito.
[3]    Eu não vejo razão para afirmar que os Agamas sânscritos (preservados em chinês), num modo geral, são posteriores aos Nikayas Pali. Em alguns casos eles podem certamente se mostrar anteriores. O mesmo se aplica aos vários Vinayas (regras monásticas) Hinayana preservados em chinês.
[4]    The Life of Buddddha (Kegan Paul. 1927)p.149.
[5]    Nada na história é estranho como esse aparente toque de ironia.
[6]    Se derivado do radical maddava, pode ser comparado etimologicamente à nossa palavra 'malva', a planta macia, suave.
[7]    Majjhima Nikaaya (Jiivaka Sutta) 55. Penso que não há correspondente dentre os Agamas chineses; mas a mesma permissão é dada nos Vinayas hinayana chineses. 58 (Taishoo Tripi.taka xxii, 998b).
[8]    i, 399; Edição de Steinthal do Udaana, p. 81 seq.
[9]    Agora perdido, para tal passagem veja  Edward  Thomas, loc. cit.
[10]  Prefácio do Majjhima Nikaaya, p.xx.
[11]  Taishoo Tripitaka, i, 18b.
[12]  ibid. xxiv, 382 seq.
[13]  Veja Anguttara Nikaaya, Vol. III, 49, (Manaapad-aayii).
[14]  Tradução de Fa-hsien  (Nanjio, 120), Taishoo  Tripi.taka, xii,868c. As palavras na versão do Dharmakshema   (Thaishoo   Tripi.taka   xii,   386b)   são idênticas.  A assim chamada Versão do Sul (Nanjio 114) é meramente uma transcrição de Nanjio 113 com uma divisão de capítulos imitada de Nanjio 118 e algumas poucas alterações verbais.   [Para os resumos dos Sutras aqui relatados veja em P.Demieville, BEFEO. 1920, 4, p.165-167: ((L'ermite  fait voeu de ne jamais manger de viande, ainsi que l'ordonnent les suutras de misericorde  de tous les buddhas...AAnanda  fait  remarquer  combien est ((etrange  et particuliere)) cette  prescription de  s'abstenir  de  viande.)) ¢w Morale bouddhique, 63-64.]
[15]  Taishoo Tripi.taka, i, 859b.
[16]  Vish.nu Sm.rti, 51,72 (Sacred Books of the East, vii, 171).
[17]  Tradução de Bodhiruci.Taishoo Tripi.taka, xvi, 561a.
[18]  Taishoo Tripi.taka, xvi, 562b.
[19]  Tradução de Gu.nabhadra ( 443 A. D. ), Taishoo Tripi.taka, xvi, 513c.
[20]  Tradução de Gu.nabhadra (514b) adiciona o Mahanirvana, e substitutos ao 'Sriimaalaa para o Angulimaala.
[21]  Majjhima-nikaaya 86. Samyuktaagama 1077. Taisnoo Tripi.taka ii, 281.
[22]  Ibid, ii, 540.
[23]  Ibid, xii, 1099c.
[24]  Ibid, xvii, 787a. Traduzido em 424-441.
[25]  Ibid, xxiv, 1005b. Isso supõe-se ser um trecho de um longo trabalho em sanscrito. Mas o Chung Ching Mu Lu (Nanjio 1609;  compilado em 594 A.D.) o descarta como forjado. A versão tibetana, que não tem título sânscrito e meramente prefixa uma referência ao título chinês, é provavelmente traduzida do chinês. Parece provável que a obra tenha sido composta originalmente na China por volta de antes de 507; pois nesse ano, em uma conferência convocada pelo imperador Wu da dinastia Liang para discutir a questão do consume de carne, o Fan-Wang Ching não é citado entre outras escrituras relevantes. É interessante que uma das autoridades em Vinaya que ofereceu a evidência dessa pergunta confessa que ele próprio não era um vegetariano (Taisho, Lii, 299).
[26]  Depois da perseguição de Pushyamitra (185-148  B.C.).
[27]  Cristãos gnósticos advocavam o completo vegetarianismo.
[28]  FA Yuan Chu-lin, Ch. 94. Taishoo Tripi.taka Lvii,980c, citando o trabalho perdido de Tao-hsuan, I-fa  Chu-chih Kan-ying Chi

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Fronteira Homem-Animal sob o ponto de vista da Filosofia e da Religião


Parece que a relação homem-animal, apesar de sempre ser citada na história da filosofia, foi resolvida de modo muito rápido, sendo mal problematizada ou tratada de modo antropocêntrico. Pelo menos no ponto de vista dos filósofos mais conhecidos. O mainstream do pensamento sempre colocou o homem – sua razão ou “seu logos” – em um pedestal como um ser superior, a exemplo do pensamento de Descartes, ou como um dominador, a “coroa da criação” (expressão emprestada da tradição teológica judaico-cristã). A metafísica sempre ocupou-se em postular abismos intransponíveis entre a humanidade e as bestas, atribuindo ao homo sapiens privilégios de eternidade, alma, raciocínio e percepção de mundo mais apurada.
Entretanto, alguns pensadores e até povos inteiros cursaram um outro rumo; atraídos ou fascinados pelos animais, procuravam conhecê-los mais a fundo e colocando-os em foco, descobriram que a relação homem-animal é mais importante do que parece e que o tema não foi “abafado” ou considerado esgotado à toa pela tradição. Atribuir igualdade ontológica entre homens e feras traria graves implicações à religião, aos hábitos e costumes de uma sociedade, ou seja, promoveria uma reviravolta em conceitos já sedimentados e que uma vez questionados nos obrigariam a repensar toda a nossa história e nosso modo de vida. Esse artigo busca elencar alguns pensadores e culturas, enfatizando filósofos como Montaigne, Derrida, Bayle e Deleuze e, fugindo um pouco do metiê filosófico acadêmico, compreender como os descendentes dos indo-arianos lidavam com a relação homem-animal. A ideia geral é discorrer sobre aqueles que resolveram lançar um olhar diferente, divergente da perspectiva antropocêntrica do senso comum, sobre o tema da animalidade.

O senso comum contemporâneo ocidental sobre as feras pode ser sintetizado pelo pensamento cartesiano. René Descartes (1596-1650) considerava os animais como simples máquinas, que reagiam diante das situações de maneira instintivamente programada (autômata e irracional); não possuíam alma, tampouco sentimentos, nem poderiam se relacionar com Deus; restando-lhes o único objetivo de nos servir. A semelhança entre humanos e não-humanos ocorreria apenas quanto ao corpo (substância extensa). Entretanto, como os não-humanos não são portadores de alma, não apresentariam sensações ou consciência. Essa diferença entre ter alma ou não era apontada por Descartes devido a linguagem e a consciência do eu (atitude proposicional) que, segundo sua visão, somente os homens apresentam. Até os homens mais brutos e insanos falam e produzem enunciados (o que os evidencia como seres racionais), enquanto que, por mais perfeito que um animal seja, este não tem a capacidade de falar. Assim, a incomunicabilidade entre homens e animais se daria porque os animais são privados de pensamento e, consequentemente de linguagem, concepção que segundo o cartesianismo, construiu um enorme distanciamento entre “racionais” e “irracionais”.
Mesmo alguns dos severos críticos de Descartes chegaram a conclusões parecidas com a do francês, a exemplo do pensador contemporâneo Heiddeger (1889-1976) que considerava-se acima do senso comum, porém afirmava que os animais não tinham mundo – “um cachorro não existe, apenas vive”, dizia. Até mesmo Spinoza (1632-1677), que tinha uma concepção de realidade muito diferente de Descartes e o cristianismo, escreveu em sua obra “Ética”:

[...] a lei que proíbe matar os animais funda-se mais numa vã superstição e numa misericórdia feminil do que na são razão. O princípio pelo qual se deve buscar o que nos é útil ensina, indubitavelmente, a necessidade de nos unirmos aos homens e não aos animais ou às coisas, cuja natureza é diferente da natureza humana. Temos sobre eles o mesmo direito que eles têm sobre nós. Ou melhor, como o direito de cada um se define por sua virtude ou potência, os homens têm muito mais direito sobre os animais do que estes sobre os homens. Não nego, entretanto, que os animais sintam. Nego que não nos seja permitido, por causa disso, atender à nossa conveniência, utilizando-os como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil, pois eles não concordam, em natureza, conosco, e seus afetos são diferentes, em natureza dos afetos humanos.” (Spinoza - Ética)

Na contramão deste pensamento corrente, poder-se-ia citar Voltaire e os modernos “menos influentes” Bayle e Montaigne e, ainda, os contemporâneos Derrida e Deleuze, mesmo este último manifestando não gostar de animais domesticados.

Transfere agora teu raciocínio, por comparação, para aquele cão que se perdeu do dono, que o procura por todos os lados soltando latidos dolorosos, que entra em casa, agitado, inquieto, que sobe e que desce, percorre as casas, uma após outras, até que acaba, finalmente, por encontrar o dono de que tanto gosta no gabinete dele e ali lhe manifesta a sua alegria pela ternura dos latidos, em pródigas carícias. Algumas criaturas bárbaras, agarram nesse cão, que excede o homem em sentimentos de amizade; pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo ainda, para te mostrarem as veias mesentéricas. Encontras neles todos os órgãos das sensações que também existem em ti. Atreve-te agora a argumentar, se és capaz, que a natureza colocou todos estes instrumentos do sentimento no animal, para que ele não possa sentir? Dispõe de nervos para manter-se impassível? Que nem te ocorra tão impertinente contradição da natureza.” (Voltaire – Dicionário Filosófico)

sábado, 6 de dezembro de 2014

O alimento dos demônios

Por que os sutras budistas dizem que a carne é o alimento dos demônios?

Vos ofereço um vislumbre do inferno:
https://www.youtube.com/watch?v=c3bOuSfiRK4

Assista com o volume bem alto.

"O Bodhisattva teme as causas, os seres comuns apenas temem os resultados. Evitando o o que resulta em sofrimento, o Bodhisattva destrói as causas malignas antes que sejam geradas. Assim, as ações maléficas são eliminadas e as virtudes são acumuladas em abundância..." (Mestre Yin Kuang, século XIX)

sábado, 2 de agosto de 2014

Nichiren e o Preceito de Não Matar.

Pintura feita entre os séculos XIV e XV,
mantida no templo Kuon-ji,
no Monte Minobu.
Nichiren (às vezes grafado como Nitiren) foi um monge budista japonês do século XIII. Hoje há muitas religiões que se afirmam seguidoras de Nichiren e seus ensinamentos. Ele era um devoto do Sutra do Lótus e da melhor forma que podia dentro das possibilidades da época e lugar em que viveu, lutou com todas as forças para proteger o ensino. Reconhecendo esse sutra e o Sutra Mahayana do Nirvana como contendo a essência do ensinamento do Buda, se considerava discípulo de Saichō (Dengyō Daishi) e de Tiantai Zhiyi.

Dentre as várias cartas que deixou, orientando a todos que venerassem o Sutra do Lótus através da prática da lembrança do Dharma, mantendo a frase "Homenagem ao Sutra do Lótus" sempre em mente e nas ações, exortou também sobre a observação dos preceitos, inclusive o de não matar.

"O maior tesouro dos seres sencientes não é outro que não a vida. Aqueles que tomam a vida estão condenados aos três mundos inferiores. Os Reis Giradores da Roda[1] observaram o preceito de não matar como o primeiro dos Dez Bons Preceitos. O Buda ensinou os Cinco Preceitos começando pelos sutras Hinayana e fez de "não matar" o primeiro deles. O Buda também ensinou "não matar" como o primeiro dos Dez Preceitos Maiores dos Bodhisattvas no Sutra Mahayana da Rede de Brahma[2]. O capítulo Juryo do Sutra do Lótus contém as bênçãos do Buda advindas do [cumprimento do] preceito de não matar. Consequentemente, aqueles que tomam a vida serão esquecidos pelos Budas de todos os três períodos de tempo[3] e os deuses dos seis céus do mundo não os protegerão. Os estudiosos de nosso tempo estão cientes disso e eu, Nichiren, também tenho uma geral compreensão do fato." (Major Writings of Nichiren Daishonin, Vol. 6, p. 89)

"Nada em todos os sistemas de mundos se compara ao valor de um ser vivo, isso significa que nem mesmo todas as joias e tesouros que preenchem o universo podem se igualar ao valor de uma vida. Aquele que mata uma mera formiga cairá no inferno, o que dizer então daquele que mata peixes e pássaros?" (Major Writings of Nichiren Daishonin, Vol. 7)

"O primeiro dos cinco preceitos[4] é não tirar a vida e a primeira das seis paramitas[5] é a generosidade. Seja os dez bons preceitos, nos duzentos e cinquenta preceitos, nos dez preceitos maiores e em todas as outras regras de conduta, todos começam com a proibição de tomar a vida.
Todos os seres vivos, do mais alto sábio ao menor mosquito ou pernilongo, sustentam a vida como bem mais precioso. Privá-los de viver é cometer o mais grave tipo de falta.
Quando o Buda surgiu nesse mundo, ele sustentou a compaixão pelos seres vivos como a base de tudo. E como expressão de sua compaixão pela vida, abster-se de tomar a vida e prover o sustento para os seres vivos é o mais importante dos preceitos." (Major Writings of Nichiren Daishonin, Vol. 5 p.189)

. . .

[1] cakravartin (sct). Um governante do universo, ou seja, os Budas.
[2] Nichiren está falando deste trecho do Sutra da Rede de Brahma: "Um discípulo de Buda não deve matar, encorajar outros a matar, matar por meios hábeis, louvar o ato de matar, alegrar-se ao presenciar o ato de matar ou tentar matar mediante encantamentos ou mantras desviantes. Não deve criar as causas, condições, métodos ou karma de matar e não deve matar intencionalmente qualquer criatura viva. Enquanto discípulo de Buda, deve desenvolver uma mente compassiva e filial, procurando sempre meios hábeis para salvar e proteger todos os seres."
[3] Passado, presente e futuro.
[4] Código ético budista básico seguido por todos os seguidores, sejam monges ou leigos. Não matar ou causar a morte, não roubar ou tomar algo que não te foi dado, não manter conduta sexual imprópria, não usar a fala com intenção de enganar, não intoxicar a percepção. Está espalhado por toda literatura budista.
[5] Generosidade, moralidade, paciência, energia, concentração, sabedoria.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Heresia, fanatismo, fundamentalismo e os "happy buddhists"

por Marcelo Prati (Renji)

Um tempo atrás, após fazer críticas leves e absolutamente plausíveis sobre heresias e bizarrices dentro do Budismo, um amigo me perguntou o que eu tinha contra os "happy buddhists", ele fazia uma referência ao tipo de seguidor (ou de guia) que está lá "pra sentir a vibe", aquele que adora frases de efeito (mesmo que não tenham significado nenhum). De fato, achei a expressão que ele usou muito curiosa. Primeiro porque ela associa a felicidade com uma sensação ilusória, o que de cara já vai de encontro com a primeira das Quatro Nobres Verdades, isso pra não falar dos Selos do Dharma. Além disso, ficou aquela impressão de que eu estaria "exagerando" ou "contra" o direito universal de cada um fazer o que acha correto da vida. Direito universal que se estende até mim para me posicionar pessoalmente contra o que não acho válido e correto e obviamente explicar a razão.

Hoje tive o desprazer de assistir alguns videos que me fizeram lembrar desse ocorrido. Os costumes da tradição praticada no Obakusan Manpukuji, uma escola que poderia ser considerada uma ponte com as tradições chinesas anteriores, contaminada de heresias, algo doentio, nojento, repulsivo, grotesco, completamente fora do que deveria ser considerado Budismo, já que não há nada, leia bem, nada em nenhuma escritura Budista que nem ao menos de maneira distorcida considere válido ou aceitável isso que você verá nos vídeos. Estou exagerando? Estaria sendo "fundamentalista"? Curioso é notar que essa palavra é definida no dicionário Aurélio da língua portuguesa como "Tendência de alguns adeptos de uma religião de retornar ao que consideram como fundamental ou original." Será que todo mundo procurou uma fonte de consulta antes de repeti-la aos quatro cantos associando-a com a ideia de fanatismo? Voltaire em seu Dicionário Filosófico escreve sobre o fanatismo:
"Não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados."
E ainda diz que "o efeito da filosofia é tornar a alma tranquila e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Se a (...) religião tem sido freqüentemente corrompida por esse furor infernal, é à loucura humana que se deve culpar." Ou seja, questionar, argumentar e considerar pontos divergentes não é fanatismo. E fundamentalismo não é fanatismo. Fanatismo é sustentar uma afirmação, mesmo que seja uma mentira distorcida, e adoentar as mentes das pessoas chamando aquilo de verdade. Fundamentalismo é trazer à tona o que é importante, fundamental e foi perdido.

Prosseguindo, as imagens que veremos nos vídeos são uma prática claramente de influência taoista, misturado com todo tipo de crendice espúria e desprezível e observar algo assim me atinge com uma mistura de tristeza e estarrecimento. Você critica o pastor que promete bênçãos e milagres em troca de dinheiro? Você despreza o êxtase coletivo e a gritaria esquizofrênica do neopentecostalismo? Então eu não deveria corroborar com a visão do Budismo ter se tornado repetição ritualística, desse templo transformado num prostíbulo de almas, a porta do inferno enfeitada e demônios fantasiados de monges convidando para entrar e congregar em seu culto diabólico.

Através da total destruição da base doutrinária fundamental, algumas escolas ditas budistas atingiram o fundo do poço. Tudo virou um museu abandonado, um teatrinho de fantoches controlados pelas mãos do próprio Māra. Isso me faz pensar que sou brando demais. Enquanto se bate palmas para as "maravilhosas tradições legítimas" o Budismo morre às mínguas e se debate em agonia, pisado e chutado por quem se diz Budista. Cuspido pelos que se dizem seus cuidadores. Além de muitos outros que cegos pela aparência externa não percebem que se trata de um diabo sob um disfarce. A pompa, a aparência de tradição, não as deixa notar os chifres que sobressaem. Se bem que certos indivíduos até notam. "Ah, mas deve ser algum exótico costume oriental. Eles devem ter uma boa razão pra usar os chifres, quem sou eu pra dizer. Com certeza é um adereço auspicioso." Assim passam também os fiéis a usar tais enfeites e ainda dizer que são os cornos da boa sorte. E o diabo a rir-se atrás da máscara. Vejamos os vídeos:

1. Eis a oferenda feita para Avalokitesvara, pra quem não conhece, esse bodhisattva que representa a compaixão por todos seres vivos. Uma das afirmações mais básicas do Budismo Mahayana é a de que todos os seres vivos compartilham do estado de Buda latente e assim são essencialmente idênticos. Veja as ofertas para a compaixão em 5:21 http://youtu.be/_R4p_ghOikU?t=5m21s

2. Também da seita Obaku, no templo (nem sei se chamo isso de templo) Sofukuji em Nagasaki, o lamentável "Festival dos Fantasmas" e suas oferendas também de cadáveres, além das "casinhas" para os "fantasmas" morarem. http://youtu.be/wfjbER45E74

3. Mais merda no mesmo templo... veja em 9:35 http://youtu.be/n1eyzoamfCU?t=9m35s

Sim, você viu corretamente. Existem pedaços de cadáveres enfeitados ofertados a Avalokitesvara. Não é possível uma profanação maior. Deveriam tocar fogo nos sutras e queimar as estátuas dos Buda e Bodhisattvas. Seria menos desrespeitoso. Repito, não existe profanação maior do que oferecer a Avalokitesvara o alimento dos demônios. Isso é doente. Enquanto isso, leia o que diz o Sutra da Total Aniquilação do Dharma (T0396_.12.1118c09):
"Demônios se tornarão monges para deteriorar meu caminho e torná-lo confuso. (...) Eles beberão álcool e comerão carne, tirando vidas pela ganância de seu sabor. Neles não haverá verdadeira compaixão e serão odiosos e invejosos uns com os outros.
(...)
Eles vão omitir partes dos sutras, desconsiderando aqui e ali, não querendo ensinar o texto inteiro, nem terão o hábito de recitar os sutras. Ainda assim, mesmo que alguém os leia, nem sequer uma palavra ou frase será entendida. Haverá aqueles de palavras fortes e consistentes, mas os monges servos do demônio não consultarão os mais esclarecidos por serem orgulhosos e só buscarem fama ao invés do Dharma. Não serão objetivos em suas falas, mas terão trejeitos suaves e elegantes, pois querem ser homenageados e receber oferendas.
(...)
Naquele tempo, embora existam bodhisattvas, praticantes solitários e arhats, os monges servos do demônio vão expulsá-los e persegui-los não permitindo que participem das assembleias. Por isso os três tipos de praticantes adentrarão às montanhas  cultivando práticas benéficas em prol da humanidade. Autocontrolados, eles serão felizes e contentes e (...) eles reerguerão o Budismo."
Será que eu estou incomodado com os "happy buddhists"? Ou talvez minhas palavras sejam escritas justamente porque me importo com eles... Leia o que diz o capítulo VI do Dhammapada. Há algo de felicidade (ou de budista) nessas cenas grotescas? Será que eu estou reagindo com excessos? Em outro tempo, esse templo seria invadido debaixo de porretadas. Vale lembrar que os Sohei, os monges soldados, destruíram em um único dia sete templos da seita de Nichiren apenas pela acusação de que tais templos pregavam uma interpretação errônea do Sutra do Lótus. Minha reação é exagerada? Os pobres animais sob a imagem de Guanyin e enquanto isso no altar principal a frase em chinês: "Grande e Ampla Compaixão de Buda"... parece um tipo de piada, uma piada demoníaca. Algo preternatural. Algo que causa náuseas, nojo e um certo terror até. A visão do templo torna-se sombria, sórdida, algo velho e escuro, abandonado, vazio, cheio de fantasmas e não de pessoas. É a precisa imagem que, de alguma forma, se manifesta profetizada no Sutra da Total Aniquilação do Dharma. [Leia o texto completo].

O que o Grande Mestre T'ien-t'ai diria disso? T'ien-t'ai Chih-i, no século VI, conseguiu que todo tipo de caça e pesca fosse proibido na área da montanha T'ien-t'ai por um decreto imperial que durou dois séculos. É, talvez o vegetarianismo seja algo relevante dentro do Budismo, não? Você não acha que algo repetido por tantas vezes em todos os sutras e comentários tem alguma razão de estar lá? Hoje o mesmo tipo de oferenda de cadáveres é feita aos deuses taoistas na área da montanha, nas circunvizinhanças onde Chih-i esteve e ensinou. Isso pra não falar dos vagabundos que se embriagam dentro dos templos e se dizem possessos por "Jigong", fantasiando-se de monges. Essa é a imagem atual da " maravilhosa tradição".

O que Saichō diria disso? Saichō disse no século IX:
"Meus companheiros deste Monte [Hiei], seguindo os preceitos, vocês não devem beber sake. Se vocês violarem essa regra, vocês não serão nem meus companheiros, muito menos meus discípulos. Recitem o Sutra do Lótus todos os dias, estudem os corretos ensinamentos, se esforcem na meditação fazendo com que o Dharma dure para sempre."
Tantos se dizem seguidores de Nichiren e do Sutra do Lótus... Nichiren se afirmava em suas cartas como mero discípulo de Saichō. E em uma delas escreve:
"Nada em todos os sistemas de mundos se compara ao valor de um ser vivo, isso significa que nem mesmo todas as joias e tesouros que preenchem o universo podem se igualar ao valor de uma vida. Aquele que mata uma mera formiga cairá no inferno, o que dizer então daquele que mata peixes e pássaros?" (Nichiren, Carta para Akimoto. 1280)
O templo dos vídeos é o templo onde Tetsugen ensinava no século XVII. O mesmo Tetsugen Dōkō que disse:
"Todos aqueles que praticam sem manter os preceitos ensinados pelo Buda representam o Falso Dharma. A razão para isso é a seguinte: Enquanto práticas como recitar a lembrança do Buda Amida, sentar-se em meditação e recitar os sutras são praticadas de forma diferente dependendo da habilidade do praticante, os preceitos contra tirar a vida, roubar, má conduta sexual, mentira etc. são absolutos, independentemente da Escola. Não mantê-los é inaceitável."
Estou sendo exagerado? Nem um pouco. Pego leve demais. Explico demais e com gentileza demais.

Estou sendo fundamentalista? Da forma correta, sim. Maravilha. Tento argumentar com clareza e busco o que é fundamental e verdadeiro, trazendo para este tempo e lugar em que vivemos. Identificando o que é superstição local, folclore e procurando o significado, a essência pra compreender o melhor método de atingi-la. Lembrando: tradição não é repetir uma idiotice por cem anos.

Estou sendo fanático? Não. Vivemos num tempo em que todas as coisas se tornaram uma massa nojenta e sem forma e alguém te chama de fanático apenas por fazer algo simplesmente da maneira que deveria ser feito.

Tenho alguma coisa contra os "happy buddhists"? Não. Muito pelo contrário. Apenas falo para que percebam que não são nem happy e menos ainda buddhists.

Todo mundo precisa concordar comigo? Não. Mas também não vou usar contos de fadas para justificar nenhuma posição. Confiar no lobo só por ele vestir a capa de cordeiro é uma escolha. Por que é tão fácil criticar o Cristianismo, chamar pastor de mentiroso, ladrão, vagabundo e é tão difícil aceitar que nem tudo que vem da Ásia é puro e santo? Vamos amar os seres vivos, vamos rezar o mantra da compaixão, vamos falar da igualdade entre todos os seres, já que todos compartilham da mesma natureza búdica. E depois do culto tem churrasco e feijoada no pátio.

Reflitam.

. . .


"Demônios se tornarão monges para deteriorar meu caminho e torná-lo confuso. Eles beberão álcool e comerão carne, vão omitir partes dos sutras, serão prolixos e terão trejeitos suaves, pois querem ser famosos..." (Sutra da Total Aniquilação do Dharma)