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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Kāraṇḍavyūha Sutra - O Glorioso Rei dos Tesouros [capítulo 1 em português]

O Sutra Kāraṇḍavyūha foi escrito por volta do fim do século IV e início do V. Este é o primeiro capítulo completo em português. É deste sutra que consta o conhecido mantra Om Mani Padme Hum e seu sentido está na compreensão do texto. Aos poucos vou postando novos capítulos e certamente o texto ainda sofrerá alterações.

Marcelo Prati (Upāsaka Pundarikakarna)


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O Buda Pronuncia o Sutra do Glorioso Rei dos Tesouros [Kāraṇḍavyūha Sutra]

Capítulo 1
Vindo da Índia Central para o Templo da Floresta Oculta [na China], de forma a evitar calamidades na nação, o śramaṇa Tiānxīzāi, autoridade no Tripiṭaka agraciado com o manto púrpura, traduziu [este sutra] segundo o édito imperial.
Tradução do chinês para o português iniciada pelo Upāsaka Pundarikakarna no verão de 2014.
Assim ouvi. Naquele tempo o Honrado Pelo Mundo estava em Śrāvastī, no jardim de Jetavana Anāthapiṇḍada-ārāma. Junto com ele estava a grande comunidade de monges contando com duzentas e cinquenta pessoas. Estavam presentes muitos bodhisattvas mahāsattvas, dentre os quais o bodhisattva-mahāsattva Vajrapāṇi, o bodhisattva-mahāsattva Visões-Cognitivas, o bodhisattva-mahāsattva Vajrasena, o bodhisattva-mahāsattva Repositório Secreto, o bodhisattva-mahāsattva Ākāśagarbha, o bodhisattva-mahāsattva Repositório do Sol, o bodhisattva-mahāsattva Imovível, o bodhisattva-mahāsattva Mão Preciosa, o bodhisattva-mahāsattva Samantabhadra, o bodhisattva-mahāsattva Firmada Compreensão da Verdade, o bodhisattva-mahāsattva Remoção dos Impedimentos, o bodhisattva-mahāsattva Grande em Zelo e Bravura, o bodhisattva-mahāsattva Rei dos Remédios, o bodhisattva-mahāsattva Avalokitêśvara, o bodhisattva-mahāsattva Vajradhara, o bodhisattva-mahāsattva Oceano de Sabedoria, o bodhisattva-mahāsattva Senda ao Dharma de Buda e assim por diante.

Oitocentos milhões de bodhisattvas se reuniram naquele momento e também compareceram muitos seres celestiais de trinta e dois paraísos, todos se juntaram à assembleia liderados por Mahêśvara e Nārāyaṇa. O Rei Śakra Devānām-Indra, Senhor do mundo sahā, o Rei Celestial Brahma, o Deus do Sol, o Deus da Lua, o Deus dos Ventos e o Deus da Água.

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Também havia centenas de milhares de reis dragão, cujos nomes são: Rei Dragão Apalara, Rei Dragão Yilapadri, Rei Dragão Dimingnili, Rei Dragão Regente da Terra, Rei Dragão de Cem Cabeças, Rei Dragão Hulusina, Rei Dragão Dechaji, Rei Dragão Cabeça de Boi, Rei Dragão Cabeça de Cervo, Rei Dragão Nanda, Rei Dragão Upananda, Rei Dragão Filho de Peixe, Rei Dragão Desprovido do Calor da Ansiedade, Rei Dragão Sagharina e tantos outros, todos juntando-se à assembleia.

Havia também centenas de milhares de reis Gandharva cujos nomes são: Rei Gandharva Som do Tambor, Rei Gandharva Doce Som, Rei Gandharva de Mil Braços, Rei Gandharva Senhor Celestial, Rei Gandharva Corpo de Felicidade, Rei Gandharva Música das Miríades, Rei Gandharva Sublime, Rei Gandharva Aparência de Criança, Rei Gandharva Braços de Maravilhas, Rei Gandharva Alegria do Dharma e tantos outros, se juntaram todos à assembleia.

Havia também centenas de milhares de Reis Kinnara cujos nomes são: Rei Kinnara Boca Maravilhosa, Rei Kinnara Coroa Preciosa, Rei Kinnara Brilho e Alegria, Rei Kinnara Felicidade, Rei Kinnara Sublime Roda, Rei Kinnara Pérolas e Joias, Rei Kinnara Grande Abdome, Rei Kinnara Firme Diligência, Rei Kinnara Bravura Maravilhosa, Rei Kinnara Centena de Bocas, Rei Kinnara Grande Árvore e tantos outros, se juntando todos à assembleia.

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Havia também centenas de milhares de deusas cujos nomes eram: Deusa Suprema, Deusa Maravilhosamente Sublime, Deusa Cinturão de Ouro, Deusa Sublime, Deusa Ouvindo e Mantendo, Deusa Lua de Néctar, Deusa Corpo Puro, Deusa Luz Preciosa, Deusa Corpo de Flores, Deusa Face Celestial, Deusa que Executa os Cinco Tipos de Música com sua Boca, Deusa Felicidade, Deusa Cabelos Dourados, Deusa Lótus Verde, Deusa Pregação do Som do Dharma, Deusa Alegria Maravilhosa, Deusa Produção da Alegria, Deusa Maravilhosa Aparência Sublime, Deusa Firme Postura, Deusa Doações, Deusa Purificada e tantas outras, se juntando todas à assembleia.

Havia também milhares de milhões de filhas de reis dragões cujos nomes são: Menina Dragão Maravilhosa Firme Postura, Menina Dragão Muzinina, Menina Dragão Três Coques no Cabelo, Menina Dragão Contenção Gentil, Menina Dragão Sorte Superior, Menina Dragão Olhos de Relâmpago, Menina Dragão Luz do Relâmpago, Menina Dragão Montanha Maravilhosa, Menina Dragão Uma Centena de Parentes, Menina Dragão Grande Remédio, Menina Dragão Luz da Lua, Menina Dragão de Uma Cabeça, Menina Dragão Centenas de Braços, Menina Dragão Aceitar e Manter, Menina Dragão Desprovida de Aflições, Menina Dragão Virtude Sublime, Menina Dragão Nuvem Branca, Menina Dragão Sobre o Veículo, Menina Dragão do Futuro, Menina Dragão Plena de Parentes, Menina Dragão Ventre do Mar, Menina Dragão Cobrir da Face, Menina Dragão Trono do Dharma, Menina Dragão Mão Maravilhosa, Menina Dragão Profunda como o Oceano, Menina Dragão Maravilhosa Sorte Superior e assim por diante, se juntando todas à assembleia.

Havia também centenas de milhares de meninas Gandharva cujos nomes são: Menina Gandharva Face Amável, Menina Gandharva Doação Aprazível, Menina Gandharva Invisível, Menina Gandharva Sorte Maravilhosa, Menina Gandharva Cabelos de Vajra, Menina Gandharva Cabelos Maravilhosos, Menina Gandharva da Floresta, Menina Gandharva Centenas de Tipos de Flores, Menina Gandharva Desabrochar das Flores, Menina Gandharva Cabelos Preciosos, Menina Gandharva Ventre Maravilhoso, Menina Gandharva Rei de Sorte, Menina Gandharva Som do Tambor, Menina Gandharva Maravilha Sublime, Menina Gandharva Ricos Presentes, Menina Gandharva Alegria no Dharma, Menina Gandharva Doação do Dharma, Menina Gandharva Lótus Verde, Menina Gandharva Centenas de Mãos, Menina Gandharva Sorte do Lótus, Menina Gandharva Grandíssimo Lótus, Menina Gandharva Corpo Puro, Menina Gandharva Livre Viajante, Menina Gandharva Doação da Terra, Menina Gandharva Doação dos Frutos, Menina Gandharva Passos de Leão, Menina Gandharva Kumunava, Menina Gandharva Mente Maravilhosa, Menina Gandharva Doação Gentil, Menina Gandharva Prazer na Verdadeira Quietude, Menina Gandharva Dentes Preciosos, Menina Gandharva Alegria de Śakra-Devānām-Indra, Menina Gandharva Parente do Senhor do Mundo, Menina Gandharva Rei dos Cervos, Menina Gandharva Transformação e Sorte, Menina Gandharva Pico das Chamas, Menina Gandharva Livre do Desejo, Menina Gandharva Livre do Ódio, Menina Gandharva Livre da Ignorância, Menina Gandharva Parentes Conselheiros de Grande Conhecimento, Menina Gandharva Trono Precioso, Menina Gandharva Ir e Vir, Menina Gandharva Luz do Fogo, Menina Gandharva Luz da Lua, Menina Gandharva Olhos Universais Iluminados, Menina Gandharva Brilho Dourado, Menina Gandharva Favor aos Conselheiros de Grande Conhecimento e assim por diante, se juntando todas à assembleia.

Havia também centenas de milhares de meninas Kinnara cujos nomes são: Menina Kinnara Mente Atenta, Menina Kinnara Profundo Significado, Menina Kinnara Viajante do Vento, Menina Kinnara Viajante das Águas, Menina Kinnara que Cavalga o Espaço, Menina Kinnara Velocidade, Menina Kinnara Ricas Doações, Menina Kinnara Dentes Maravilhosos, Menina Kinnara Sorte Imovível, Menina Kinnara Mundos Degenerados, Menina Kinnara Ofuscante Luz Universal, Menina Kinnara Sorte Maravilhosa, Menina Kinnara Caixa Preciosa, Menina Kinnara Riquezas Singulares, Menina Kinnara Bela e Sublime, Menina Kinnara Face de Vajra, Menina Kinnara Dourada, Menina Kinnara Extraordinária e Maravilhosamente Sublime, Menina Kinnara Testa Protuberante, Menina Kinnara Cercada de Sábios Conselheiros, Menina Kinnara Governante dos Mundos, Menina Kinnara Protetora dos Espaços, Menina Kinnara Rei Sublime, Menina Kinnara Coque de Pérolas, Menina Kinnara Pérola da Total Retenção, Menina Kinnara Cercada de Pessoas Sábias, Menina Kinnara Centenas de Nomes, Menina Kinnara Dádiva da Duração da Vida, Menina Kinnara Protetora e Mantenedora do Dharma de Buda, Menina Kinnara Guardiã do Reino do Dharma, Menina Kinnara Superior Sublime, Menina Kinnara Superior Kshana, Menina Kinnara Busca pelo Dharma e o Mantém Sem Cessar, Menina Kinnara Às Vezes Vista, Menina Kinnara Destemida, Menina Kinnara Desejo pela Liberação, Menina Kinnara Sempre Secreta, Menina Kinnara Guiada à Total Retenção, Menina Kinnara Lâmina de Luz e Chamas, Menina Kinnara Viajante da Terra, Menina Kinnara Senhor Celestial Guardião, Menina Kinnara Maravilhoso Senhor Celestial, Menina Kinnara Rei dos Tesouros, Menina Kinnara Unidade na Paciência, Menina Kinnara Prática da Doação, Menina Kinnara Muitos Méritos, Menina Kinnara Armas à Mão, Menina Kinnara Maravilhosamente Sublime, Menina Kinnara Mente Maravilhosa e assim por diante, se juntando à assembleia.

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Havia também centenas de milhares de Upāsakas e Upāsikas juntos à assembleia. Assim como inumeráveis monges e leigos, centenas de milhares de não budistas tais como os nirgranthas e assim por diante, juntando-se todos à congregação.

Nesse momento, uma enorme radiância luminosa emergiu de dentro do Grande Inferno Avīci. A luz iluminou completamente o Jardim de Jetavana Anāthapiṇḍada-ārāma e fez com que o jardim se purificasse por completo. Manifestaram-se então pilares sutis adornados com muitas joias maṇi celestiais e surgiu uma enorme torre adornada com joias e ouro. Surgiram então muitos salões, alguns dourados com portões prateados, outros eram prateados com portões dourados ou ainda entrelaçados de dourado e prateado em suas paredes e portões. Surgiram também palácios entrelaçados de dourado e prateado, ricamente ornamentados com joias, além de pilares igualmente entrelaçados de dourado e prateado ricamente ornamentados com joias. Surgiram palácios dourados com pilares prateados e palácios prateados com pilares dourados, além de inúmeros palácios celestiais prateados com pilares adornados com joias maravilhosas.

Nas árvores do jardim de Jetavana Anāthapiṇḍada-ārāma, as árvores manifestaram adornos maravilhosos tesouros celestiais, gemas e joias, árvores douradas com folhas prateadas, ricamente adornadas surgiram e se multiplicaram. Acima das árvores se multiplicaram e incontáveis tipos de maravilhosas vestes da mais fina seda selvagem e tantos outros. Havia também centenas de milhares de colares de pérola e colares de pedras preciosas, tudo coberto por uma rede de joias. Havia também centenas de milhares das mais maravilhosas coroas de joias, atadas a longos tecidos de seda, adornados de belos e variados tesouros. Havia também variados tipos de flores, todas superiores e maravilhosas que se espalhavam pelo chão, sutis e maravilhosos baús de tesouro gloriosamente adornados. Dessa maneira se espalhavam as árvores gloriosas naquele bhadrakalpa, erguiam-se seguidamente, surgindo centenas de milhares sem cessar.

Então, na porta para o jardim de Jetavana Anāthapindada-ārāma surgiu uma escadaria de joias maravilhosas que guiava a uma torre adamantina e tal torre se cobriu de incontáveis e extraordinariamente maravilhosos longos tecidos de seda, ornamentos de pérola e colares de pedras preciosas.

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Decorados assim também havia centenas de milhares de maravilhosos lagos de joias cujas águas eram dotadas dos oito atributos, cobertas da mais completamente esplêndida variedade de flores, como flores de lótus azul, flores de lótus escarlate, flores de lótus branco, flores de eritrinas, flores de grandes eritrinas, flores de figueira e assim por diante, preenchendo todo o lago da margem ao meio.

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Também surgiam as mais excelentes árvores com flores que desabrochavam, como árvores em flor de magnólias brancas, árvores em flor de magnólias amarelas, árvores em flor de oleandro, árvores serpente amarela[1] em flor, árvores que desabrochavam a flor da liberação, árvores que desabrochavam a flor da fragrante dispersão, árvores que desabrochavam a flor da mente maravilhosa. Assim surgiam aquelas árvores em flor de aprazível visão. Assim, no jardim de Jetavana Anāthapindada-ārāma se manifestaram tais extraordinariamente raras, maravilhosamente puras e ricamente adornadas características.

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Naquele momento, o bodhisattva-mahāsattva Eliminar as Obstruções se ergueu de seu assento, descobrindo seu ombro direito, com o joelho direito no solo e as palmas das mãos unidas em respeito, dirigiu-se ao Buda e disse: "Este acontecimento é algo verdadeiramente raro, Honrado Pelo Mundo, agora eu tenho uma questão em minha mente e gostaria que o Tathāgata, com todo o respeito, me permitisse perguntar. Honrado Pelo Mundo, havia agora neste lugar uma grande radiância luminosa, de onde ela vem? Quais as causas e condições para que tais extremamente raras visões se manifestem?"

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E o Honrado Pelo Mundo então disse ao Bodhisattva Eliminar as Obstruções: "Homem de boa família, todos vocês que estão aqui presentes devem ouvir com atenção e eu vou explicar detalhadamente. Tal enorme radiância luminosa foi causada quando o ārya bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara entrou no Grande Inferno Avīci para resgatar todos os seres que estavam sofrendo as extremas aflições e atravessá-los à outra margem, da liberação. Tendo salvado tais seres, ele então entrou na grande cidade murada para resgatar e atravessar todos os fantasmas famintos que lá sofriam."

Então o bodhisattva-mahāsattva Eliminar as Obstruções dirigiu-se ao Buda dizendo: "Honrado Pelo Mundo, o muro da cidade de ferro e seu solo são ambos feitos de ferro. Não há espaço ou furo em toda a extensão do muro. Chamas ferozes e fumaça queimam sem cessar. É assim tal inferno do mau destino. Há um grande caldeirão com água fervente, onde centenas de milhares de koṭis de nayutas de seres sencientes foram jogados, sendo fervidos como feijões. Enquanto a água ferve, eles sobem e descem sem cessar e são cozidos até que se desfazem. Assim sofrem os seres sencientes quando renascem no Inferno Avīci. Honrado Pelo Mundo, que meios hábeis o ārya bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara possui para entrar lá?"

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O Honrado Pelo Mundo então dirigiu-se ao bodhisattva-mahāsattva Eliminar as Obstruções com tais palavras: "Homem de boa família, por exemplo, um sábio rei girador da roda pode entrar livremente no jardim celestial de joias maṇi, da mesma forma, Homem de boa família, o ārya bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara entra no Grande Inferno Avīci. Não há nada que possa impedi-lo. Naquele momento, nenhum dos instrumentos de tortura do Inferno Avīci era capaz de ferir o corpo do Bodhisattva e as ferozes chamas do inferno foram todas extintas, tornando toda aquela terra pura e refrescante."

Então, os demônios guardiões do inferno ficaram assombrados de uma forma sem precedentes e pensaram: 'Qual a razão deste lugar de repente assumir essa aparência incomum?' Foi quando o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara invadiu o inferno, destruiu o caldeirão e apagou as violentas chamas. O grande fosso de fogo se tornou um lago de joias onde flutuavam lótus grandes como carruagens.

Vendo tais acontecimentos, os demônios guardiões do inferno se armaram de todos os seus instrumentos de tortura, como bastões, espadas, martelos, alabardas, arcos e aljavas, cajados, rodas de ferro, tridentes, dentre outros, e foram onde estava o deus Yāma, rei do Inferno.

Tendo chegado lá, eles disseram: 'Grande rei, certamente você deve saber a razão pela qual esta terra de retribuição kármica de repente desapareceu completamente!' E o deus Yāma, rei do inferno respondeu: “O que vocês querem dizer com esta terra de retribuição kármica desapareceu completamente?” E os guardiões disseram ao Rei Yāma: “Queremos dizer que o Grande Inferno Avīci de repente tornou-se puro e refrescante e enquanto isso acontecia, um belo e sublime homem com um maravilhoso adorno celestial no topo de sua cabeça e uma coroa de joias adentrou ao inferno, destruiu o fosso de fogo e fez do fosso um lago onde flutuam lótus tão grandes quanto carruagens.”

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O deus Yāma, rei do inferno pensou assim: “Quem dentre homens e deuses é tão poderoso? É ele Mahêśvara, Nārāyaṇa ou quem mais? Manifestar tal descrição é algo inconcebível aqui no inferno. Terá sido feito pelo poder majestoso de mutação um vigoroso rākṣasa de dez cabeças?” Então o deus Yāma, rei do inferno, usou a força sobrenatural de seu olho divino e procurou nos mundos celestiais. Tendo feito isso, ele procurou dentro do Inferno Avīci e viu o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara. Tendo o encontrado, ele foi imediatamente ter com o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara e chegando lá, curvou-se aos pés do bodhisattva ele, com sinceridade, glorificando o bodhisattva com tais versos:

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Tomo Refúgio no Rei do Lótus
Grande compassivo Avalokiteśvara
Livre de obstáculos, portador da boa nova
Que atende às necessidades dos seres sencientes

Dotado de grande e majestoso poder
Capaz de domar e subjugar o mau e violento
Luz nos destinos sombrios
Em quem não há nenhum temor

Se manifesta com centenas de milhares de braços
Tantos quanto seus olhos
Dotado de onze faces
E de conhecimento vasto como os quatro oceanos

Deleita-se no Dharma maravilhoso
De forma a salvar a todos os seres sencientes
Sejam tartarugas, animais aquáticos ou o que seja
Seu conhecimento é mais alto que uma montanha

Oferece a joia da iluminação a todos os seres fenomênicos
Esta é sua suprema boa nova
Seus adornos são mérito e sabedoria
Por isso adentra ao Inferno Avīci

Fazendo desta terra, pura e refrescante
Todos os seres celestiais te fazem ofertas
Presto homenagens ao destemido
Que exibe as seis pāramitās

Mantenedor da chama da lâmpada do Dharma
Olho do Dharma, mais brilhante que o sol
De forma bela e sublime
Seu corpo é uma montanha de ouro

Seu ventre maravilhoso é o oceano do Dharma profundo
Que revela a Natureza Ultima da mente
Sua boca manifestou aqui méritos maravilhosos
Reunindo e acumulando absorções meditativas

Incontáveis centenas de milhares de miríades
Esse é o número de seres felizes
De suprema beleza e grande renúncia
Em meio aos terríveis destinos malignos

Liberta das cadeias e correntes
E oferece a todos o destemor
Seus seguidores te circumambulam
E suas necessidades são sempre atendidas

Assim, com suas joias maṇi
Demoliu a cidadela dos fantasmas famintos
Demonstrou o caminho da cessação
Que atravessa até a outra margem, salvando da doença do mundo

Recolhe os impedimentos e ergue o estandarte
De Nanda e Upananda
Os dois reis dragões espiralam sob seus braços
Segura nas mãos o laço da pureza dos fenômenos[2]

Manifesta incontável autoridade e poder
Destrói o medo nos três reinos
Com suas mãos de vajra, yakṣas
Rākṣasas e fantasmas

Assustadores demônios com chifres e enormes testículos
E apasmāras, todos se atemorizam
Olhos semelhantes ao lótus azul
Sábio governante dotado de destemor

De todas as aflições possíveis
Libera a todos sem cessar
Adentrando a centenas de milhares
De absorções meditativas

Revela a realidade dos objetos da percepção
Em meio a este reino dos maus destinos
Gerando causas de liberação para todos
Através da Iluminação

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Tendo feito oferendas ao bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara através de miríades de glorificações, o deus Yāma, rei do inferno, circumambulou o bodhisattva por três vezes e então voltou para sua residência.

Então, o bodhisattva Eliminar as Obstruções perguntou ao Buda novamente: "Honrado Pelo Mundo, tal bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara poderia juntar-se a esta assembleia depois de salvar aqueles seres do sofrimento?"

E o Buda disse ao Bodhisattva Eliminar as Obstruções: "Homem de boa família, tendo deixado o Grande Inferno Avīci, o bodhisattva Avalokiteśvara entrou na cidadela dos fantasmas famintos. Dentro da cidade murada havia incontáveis centenas de milhares de fantasmas famintos que expeliam chamas de suas bocas. Suas faces eram ressequidas e queimadas e seus corpos eram esqueléticos. Seus cabelos eram desgrenhados. Seus ventres eram enormes e estufados e suas gargantas eram finas como uma agulha.”

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“Quando o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara chegou à cidadela dos fantasmas famintos, todo o fogo do karma que queimavam a cidade se extinguiu tornando a cidade pura e refrescante. Naquele momento, o demônio guardião, com seu bastão de ferro quente nas mãos e seus terríveis e profundos olhos vermelhos fez surgir em si um coração piedoso: ‘De agora em diante, eu não mais vou guardar esse local de karma maligno.’”

“Então, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara fez surgir o coração da Grande Compaixão, e da ponta de seus dez dedos verteram grandes rios, assim como de cada um dos dedos de seus pés, seguido por grandes rios vertendo de cada um dos poros de seu corpo. Muitos fantasmas famintos beberam então da água daqueles rios. Tendo bebido tal água, suas gargantas tornaram-se mais largas e seus corpos e aparência tornaram-se perfeitas. Em seguida, eles receberam várias deliciosas comidas e bebidas, das quais se alimentaram todos até que se fartassem.”

"Dessa forma, tendo recebido tal conforto, cada um daqueles fantasmas famintos pensou com sinceridade: 'Por que as pessoas de Jambudvīpa também não podem receber frescor, serenidade e deleite? Naquele local há pessoas virtuosas que constantemente respeitam, demonstram piedade filial e cuidam de seus pais. Há pessoas virtuosas que são generosas no doar e respeitosamente seguem os conselhos dos bons e virtuosos amigos. Há sábios e conhecedores que permanecem no Mahāyāna. Há pessoas virtuosas que praticam o sábio caminho óctuplo. Há pessoas virtuosas que fazem soar os címbalos do Dharma. Há pessoas que estão aptas a reparar os danos sofridos pela saṃgha. Há pessoas virtuosas que podem reparar os templos danificados. Há pessoas virtuosas aptas a venerar as stūpas dos Budas do passado. Há pessoas virtuosas que não permitem que nem as stūpas nem o sinal da roda do Dharma sejam danificados. Há pessoas virtuosas que estão aptas a fazer oferendas e reverenciar os mestres do Dharma. Há pessoas virtuosas que podem ver o Tathāgata e praticar seu caminho. Há pessoas virtuosas que podem ver os bodhisattvas e praticar seu caminho. Há pessoas virtuosas que podem ver os pratyekabuddhas e praticar o seu caminho. Há pessoas virtuosas que podem ver os arhats e praticar seu caminho.' Eles pensam: 'Em Jambudvīpa há tantas pessoas que praticam o caminho.'”

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“Naquele momento, foi ouvido o maravilhoso e sutil som deste Sutra do Glorioso Rei dos Tesouros. E dentre aqueles muitos fantasmas, os que ouviram a esse som, adquiriram a perfeita visão e mesmo que suas aflições fossem como o mais alto pico de uma montanha, foram todas esmigalhadas através da sabedoria adamantina, atingindo imediatamente o renascimento na Terra Pura da Suprema Bem Aventurança, tornando-se bodhisattvas, todos com o mesmo nome de Boca Irrestringível.”

"Quando o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara salvou tais seres do sofrimento, ele então foi aos mundos das outras direções para salvar os seres sencientes e atravessá-los até a liberação."

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Nesse momento, o Bodhisattva Eliminar as Obstruções novamente dirigiu-se ao Buda dizendo: "Honrado Pelo Mundo, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara viria a este mundo para salvar e atravessar os seres até a outra margem?"

E o Honrado Pelo Mundo disse assim: "Homem de boa família, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara está a todo momento salvando e atravessando incontáveis centenas de milhares de milhões de bilhões de seres em todos os lugares com grande autoridade."

Eliminar as Obstruções disse ao Honrado Pelo Mundo: "Poderia haver grande poder majestoso como o do bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara?"

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O Buda então disse: "Homem de boa família, em um kalpa do passado, havia um Buda no mundo cujo nome era Vipaśyin, um Tathāgata, digno de honrarias, perfeitamente iluminado, perfeito na sabedoria e nas ações, bem encaminhado, conhecedor do mundo, insuperável, herói domador e subjugador, mestre de deuses e homens, um Buda, honrado pelo mundo. Naquele tempo eu era filho de um chefe de família e meu nome era Boca de Fragrância Maravilhosa. Daquele Buda eu ouvi sobre os poderes e méritos do bodhisattva Avalokiteśvara."

O Bodhisattva Eliminar as Obstruções então disse: "Honrado Pelo Mundo, quais eram os poderes e méritos do bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara que você ouviu?"

O Honrado Pelo Mundo disse assim: "O Bodhisattva Avalokiteśvara fez emergir o sol e a lua de seus olhos, fez emergir Mahêśvara de sua testa, fez emergir o Rei Celestial Brahma de seu ombro, fez emergir Nārāyaṇa de seu coração, fez emergir Sarasvatī de seus dentes, fez emergir o Deus do Vento de sua boca, fez emergir Pṛthivī de seu umbigo e fez emergir Varuṇa de seu ventre. Tendo feito nascer a tais deuses a partir de seu próprio corpo, o bodhisattva Avalokiteśvara disse a Mahêśvara: 'Na era do fim do Dharma, no futuro, nos reinos dos seres sencientes, haverá seres fenomênicos apegados a visões errôneas, dizendo que você é o Grande Senhor do tempo sem início e que pode dar surgimento todos os seres sencientes. Naquele momento, os seres fenomênicos negligenciarão a Iluminação, tornando-se estúpidos e iludidos, dizendo assim:’”

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“’Este espaço e seus elementos são seu corpo
E a terra é seu assento
O reino da forma e sua relação com os seres sencientes
emergem desse corpo’”

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"Homem de boa família, depois que eu ouvi isso do Tathāgata Vipaśyin, após um tempo houve outro Buda que surgiu no mundo cujo nome era Śikhin, um Tathāgata, digno de honrarias, perfeitamente iluminado, perfeito em sabedoria e ação, bem encaminhado, conhecedor do mundo, insuperável, herói domador e subjugador, mestre de deuses e homens, um Buda, honrado pelo mundo. Eliminar as Obstruções, naquele momento eu era o bodhisattva-mahāsattva Dádiva Heroica. Daquele Buda eu ouvi sobre os poderes e méritos do bodhisattva Avalokiteśvara."

O bodhisattva Eliminar as Obstruções então disse: "Honrado Pelo Mundo, quais eram os poderes e méritos do bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara que você então ouviu?"

O Buda disse: "Naquele momento, na assembleia do Tathāgata Śikhin, deuses dragões, yakṣas, asuras, garuḍas, mahoragas, humanos e não-humanos estavam todos reunidos. Quando o Honrado Pelo Mundo estava prestes a pregar o Dharma na congregação, ele emitiu miríades de luzes multicoloridas, como uma luz verde, uma luz amarela, uma luz alaranjada, uma luz branca, uma luz vermelha, uma luz da cor do quartzo e uma luz dourada. A luz iluminou universalmente a todos os mundos das dez direções e então retornou, circumambulando o Buda por três vezes e entrando em sua boca. Naquele instante, um bodhisattva-mahāsattva que estava na congregação, cujo nome é Mão Preciosa, levantou-se de seu assento, descobriu seu ombro direito, pôs o joelho direito no chão, juntou as palmas das mãos respeitosamente e disse ao Honrado Pelo Mundo: 'Qual a causa da manifestação de tais auspícios?' E aquele Buda respondeu: 'Homem de boa família, na Terra da Suprema Bem Aventurança há um bodhisattva-mahāsattva chamado Avalokiteśvara e ele deseja vir até aqui, por isso manifestaram-se tais auspícios.

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Quando o bodhisattva Avalokiteśvara estava prestes a vir, miríades de árvores kalpataru, árvores de flores, árvores de nenúfares e árvores de magnólias surgiram. Além disso, várias flores, lagos de joias e outras árvores também surgiram. Do céu choveu maravilhosas flores, vários tipos de joias maṇi, pérolas, esmeraldas, conchas espirais, jade, coral e muitos outros tesouros. Vários tecidos celestiais também surgiam como nuvens. Naquela hora, no bosque do jardim de Jetavana Anāthapiṇḍada-ārāma, os sete tesouros também apareceram e seus nomes eram: Tesouro da roda de ouro, Tesouro do Elefante, Tesouro do Cavalo, Tesouro de Pérola, Tesouro Feminino, Tesouro do Senhor do Repositório, Tesouro do Senhor do Exército. Quando os sete tesouros surgiram, toda a superfície da terra tornou-se dourada."

"E quando o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara estava partindo da Terra da Suprema Bem Aventurança o chão estremeceu de seis diferentes maneiras. O bodhisattva-mahāsattva Mão Preciosa perguntou novamente ao Honrado Pelo Mundo: 'Por que causas e condições se manifestou tal visão auspiciosa?'"

"Aquele Buda disse: 'Homem de boa família, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara deseja vir até aqui, por isso tal visão auspiciosa se manifestou.' Naquela hora caiu do céu aprazíveis e belas flores e maravilhosas flores de lótus. Então o bodhisattva Avalokiteśvara chegou segurando em suas mãos um lótus de milhares de pétalas que emitia uma luz dourada. Ele curvou-se aos pés do Buda, ofereceu o lótus ao Honrado Pelo Mundo e disse: 'O Buda da Vida Infinita disse-me para vir com este lótus.' O Honrado Pelo Mundo então aceitou o lótus e o colocou ao seu lado."

"Aquele Buda disse para o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara: 'Você manifestou neste momento seus poderes sobrenaturais, adornado de méritos. Qual a razão disso?' E Avalokiteśvara disse: 'Eu faço isso para salvar e atravessar a todos os seres sencientes que renasceram em destinos malignos, incluindo aqueles do reino dos fantasmas famintos, do Inferno Avīci, do inferno das correntes negras, o inferno das repetidas vidas dolorosas, do inferno do fogo que queima, do inferno da água fervente e do inferno da água congelada. Se há seres habitando os Grandes Infernos, eu auxilio todos eles a se afastarem dos renascimentos malignos de forma que possam atingir a Suprema e Insuperável Iluminação.' Quando o Bodhisattva Avalokiteśvara terminou de dizer isso, ele curvou-se aos pés do Buda e então de repente desapareceu, como uma chama se esvai no espaço."

"Então, naquela hora, o bodhisattva Mão Preciosa disse: 'Honrado Pelo Mundo, tenho uma pergunta para fazer ao Tathāgata, por favor, explique-a para mim. Que méritos e virtudes possui o bodhisattva Avalokiteśvara para manifestar tais poderes sobrenaturais?'"

"E o Buda disse: 'Se alguém fizer ofertas e mantiver a tantos Budas quanto há grãos de areia no rio Ganges, com maravilhosos tecidos celestiais, kasayas, bebidas, alimentos, água morna, remédios, leitos e assim por diante, as bênçãos e virtudes obtidas por tal pessoa será igual às bem aventuranças e virtudes de um único fio de cabelo do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"'Homem de boa família, isso é semelhante a quatro grandes continentes onde está sempre chovendo. A chuva segue por dias e noites em todos os doze meses do ano. Se eu pudesse contar o número de gotas de chuva um por um, ainda assim homem de boa família, eu não poderia calcular o número dos méritos do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"'Homem de boa família, também é como se nos quatro grandes oceanos, cada um com seus 84 mil yojanas de profundidade, largura e distância, eu pudesse contar as gotas de água que os compõem uma a uma, mesmo assim, homem de boa família, eu não seria capaz de enumerar os méritos do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

50b14
"Homem de boa família, se fosse possível contar todos os seres de quatro pernas dos quatro grandes continentes, tais como leões, elefantes, cavalos, tigres, lobos, ursos, cervos, vacas e ovelhas, e pudesse contar o pelo de seus corpos um por um, homem de boa família, ainda assim não poderia enumerar todos os méritos do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"'Homem de boa família, imagine que alguém use ouro celestial e tesouros para esculpir estátuas do Tathāgata e forem tantas quanto os átomos que compõem o universo inteiro, e quando prontas, ele fizesse todos os tipos de ofertas por um dia e eu pudesse contar o número de méritos que ele poderia gerar, homem de boa família, ainda assim eu não poderia enumerar os méritos do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"'Homem de boa família, imagine que eu pudesse contar o número de folhas de todas as florestas uma por uma, ainda assim não poderia enumerar o número de méritos do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"'Homem de boa família, suponhamos que todos os homens, mulheres, meninos e meninas dos quatro grandes continentes atingissem o fruto da entrada na corrente, daquele que só retorna uma vez, do que não mais retorna, do arhat, pratyekabuddha e bodhi, mesmo todos esses méritos não se igualam aos méritos de um único fio de cabelo do bodhisattva Avalokiteśvara.'"

"Então o bodhisattva Mão Preciosa disse ao Honrado Pelo Mundo: 'Eu nunca vi ou ouvi qualquer Buda, Tathāgata, que possuísse tantos méritos. Honrado Pelo Mundo, sendo um bodhisattva, como pode Avalokiteśvara possuir tantos méritos?'"

"Aquele Buda disse: 'Homem de boa família, não apenas eu neste mundo, ou mesmo que inumeráveis Tathāgatas, Arhats, Budas perfeitamente iluminados de outras direções se reunissem em um único local, não se poderia enumerar os méritos do bodhisattva Avalokiteśvara. Homem de boa família, se uma pessoa neste mundo apenas se lembrar do nome do bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara, tal pessoa se afastará dos sofrimentos do nascimento, velhice, doença, morte e renascimento. Ele renascerá rapidamente na Terra da Suprema Bem Aventurança, como um ganso real, viajando pelo ar e verá pessoalmente o Tathāgata Amitāyus e ouvirá o Dharma maravilhoso. Essa pessoa jamais irá sofrer um novo renascimento, ou os sofrimentos do desejo, ódio, ignorância, velhice, doença, morte ou fome. Através dos poderes majestosos do Dharma, ele nascerá miraculosamente de dentro de um lótus ao invés de sofrer o nascimento de um útero. Ele poderá residir naquele mundo, esperando pelo momento em que o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara terá salvo e atravessado a todos os seres até a liberação, assim cumprindo seus votos de Bodhisattva.'"

"Então o Bodhisattva Mão Preciosa perguntou ao Honrado Pelo Mundo: 'Quando Avalokiteśvara cumprirá seu firme voto de salvar e atravessar a todos os seres até a liberação?'"

50c15
"O Honrado Pelo Mundo então disse: 'Há incontáveis seres sencientes. Eles estão constantemente sofrendo nascimento, morte e renascimento sem nenhum repouso. De forma a salvar e atravessar a todos os seres e oferecer condições para que atinjam a Suprema e Perfeita Iluminação, Avalokiteśvara manifesta diferentes formas para ensinar o Dharma para diferentes tipos de seres.'"

50c18
"'Para aqueles que precisam da presença de um Buda, ele se manifesta na forma de um Buda e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um Bodhisattva, ele se manifesta na forma de um Bodhisattva e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um pratyekabuddha, ele se manifesta na forma de um pratyekabuddha e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um śrāvakas, ele se manifesta na forma de um śrāvakas e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Mahêśvara, ele se manifesta na forma de Mahêśvara e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Nārāyaṇa, ele se manifesta na forma de Nārāyaṇa e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença do Rei Celestial Brahma, ele se manifesta na forma do Rei Celestial Brahma e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Indra, ele se manifesta na forma de Indra e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença do deus do sol, ele se manifesta como o deus do sol e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença do Candradeva, ele se manifesta como o Candradeva e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença do deus do fogo, ele se manifesta como o deus do fogo e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Varuṇa, ele se manifesta como Varuṇa e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença do deus do vento, ele se manifesta como o deus do vento e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um dragão, ele se manifesta como um dragão e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Vināyaka, ele se manifesta na forma de Vināyaka e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um yakṣa, ele se manifesta na forma de um yakṣa.

Para aqueles que precisam da presença de Vaiśravana ele se manifesta na forma de Vaiśravana e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de Narêndra, ele se manifesta na forma de Narêndra e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um governante, ele se manifesta na forma de um governante e ensina o Dharma.

Para aqueles que precisam da presença de um pai e uma mãe, ele se manifesta na forma de um pai e uma mãe e ensina o Dharma.’”

"’Filho de boa família, dessa forma, de acordo com as necessidades de salvação dos seres, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara  se manifesta e ensina o Dharma de modo a atravessar a todos e gerar condições para que compreendam o nirvana.’"

"Naquele momento, o Bodhisattva Mão Preciosa disse ao Honrado Pelo Mundo: 'Eu nunca vi ou ouvi tais coisas raras e inimagináveis. Honrado Pelo Mundo, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara é mesmo inconcebível e sem igual!'"

51a14
"Então o Buda disse: 'Homem de boa família, neste Jambudvīpa, numa caverna adamantina, há um número incontável de centenas de milhares de miríades de nayutas de asuras que lá habitam. Filho de boa família, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara se manifestou lá na forma de um asura e como um asura ensinou este Sutra Kāraṇḍavyūha. Dos muitos asuras que ouviram este sutra, todos eles fizeram surgir em suas mentes a bondade e com as palmas de suas mãos fizeram oferendas ao bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara, pois ao ouvir o Verdadeiro Dharma, todos se apaziguaram sentindo alegria. Se alguém ouvir esse Rei dos Sutras e puder recitá-lo, havendo cometido os cinco tipos de atos maléficos que guiam ao renascimento no inferno de incessantes sofrimentos, suas faltas serão todas erradicadas. Chegando ao fim de sua vida, haverá doze Tathāgatas que o receberão e dirão tais palavras: 'Filho de boa família, não tema, pois você ouviu ao Sutra Kāraṇḍavyūha, ensinou a outros e plantou as sementes do caminho que guia ao renascimento na Terra da Suprema Bem Aventurança. Surgirá acima uma sutil e maravilhosa coroa celestial e as mais belas vestes. Essa serão as características do momento em que, atingindo o fim da vida, se renascer na Terra Pura da Suprema Bem Aventurança.'

Mão Preciosa, o bodhisattva-mahāsattva Avalokiteśvara, grande e incomparável, se manifesta na forma de um asura, de forma a gerar causas para que os asuras possam obter o nirvana.'"

Naquele momento, o bodhisattva Mão Preciosa, em reverência, curvou-se aos pés do Honrado Pelo Mundo até que sua testa tocou o chão e em seguida afastou-se.

51b01
O Buda Pronuncia o Sutra do Glorioso Rei dos Tesouros - Fim do Capítulo 1

____________________________
[1] stereospermum colais.
[2] Amoghapāśa (sct.): Não-vacuidade, rede ou laço. Uma das seis formas de Guanyin no agrupamento do Garbhadhatu, portando deuses, homens e peixes até a outra margem, da iluminação. A imagem possui três faces, cada uma delas três olhos e seus braços, mas outras formas também existiam, uma com três cabeças de dez braços. As mãos seguram um rede, lótus, tridente, uma alabarda, a dádiva da coragem e o cajado poderoso. Às vezes acompanhado da Tārā Verde, Sudhana-Kumāra, Hayagrīva e Bhṛkuṭī. Aparece em inúmeros sutras.

sábado, 8 de março de 2014

Budismo Esotérico (Mikkyo) - Parte 6


6. A Chegada do Budismo Esotérico no Japão
por Marcelo Prati (Renji)

Embora, sem dúvidas tenha chegado antes, oficialmente o Budismo tem sua entrada registrada no meio do século VI através do reino coreano de Paekche. Inicialmente, os poderosos clãs aristocráticos japoneses o receberam apenas como algum tipo de magia paralela às crenças xamanistas, superstições e práticas que já eram comuns. Numa época de grandes transições quando vários clãs se uniam e o poder político caminhava rumo à centralização na figura singular de um imperador (ou imperatriz), o modelo de organização governamental, de leis e regimentos foi todo importado da China. A cultura chinesa era largamente incorporada aos costumes japoneses e o Budismo entra em cena como parte disso. Como uma maneira de introduzir no Japão do período um sistema superior de linguagem poética, arte e pensamento filosófico.

Bodhisattva Kannon de Mil Braços
Símbolo da habilidade em exercer
a compaixão pelos seres vivos
Depois de muitas reviravoltas é estabelecido como religião oficial no século VIII (permanecendo assim até o século XIX). Nesse período, a exemplo do que ocorreu na China, o Budismo se torna mais aceito por seus aspectos ritualísticos do que pelo pensamento religioso. Inúmeras cerimônias eram oficializadas e a prática de encantamentos tornou-se largamente popularizada dentro do escopo do Budismo japonês de uma forma geral. A arte budista, a escultura e a pintura se desenvolvem grandemente e cerca de 150 esculturas da época ainda existem e dessas, cerca de quarenta são de divindades presentes nos sutras esotéricos. Contudo, os mandalas mais importantes ainda não eram conhecidos.

No período Nara (710-794 EC) considera-se que havia seis escolas que, contudo, não tinham divisões rígidas. Seus estudos eram conjuntos, sacerdotes de diferentes escolas viviam e trabalhavam nos mesmos templos. Esses sacerdotes, a maioria vindos de famílias aristocráticas, tendiam para a realização de rituais visando benefícios materiais para seus patronos nobres e para o estado. Com o tempo a prática de recitação de dhāraṇīs tornou-se largamente popular, o que começou a fomentar as lendas e o folclore sobre bênçãos e milagres através da recitação de encantamentos voltados para as divindades do panteão budista. Um dos primeiros grupos de praticantes esotéricos se chamava escola da Sabedoria Natural (jinenchi-shu), composta por sacerdotes de Nara que se retiravam para os monastérios nas montanhas para desenvolver suas habilidades de concentração e insight.

Bodhisattva Kokuzo
A manutenção da sabedoria
através da memorização dos textos
Uma prática que se considera capaz de desenvolver tais habilidades é a meditação da Estrela da Manhã (gumonji-ho), uma prática esotérica concentrada na figura do bodhisattva Kokuzo que também, segundo consta, é capaz de desenvolver amplamente a memória. O texto onde se encontra a descrição da meditação da Estrela da Manhã foi levado para o Japão em 718 pelo sacerdote de Nara, Doji, que o recebeu de Shubhakarasimha.

Separado do Budismo patrocinado pela corte, que se desenvolvia para seus próprios propósitos, o período Nara também contou com um tipo de Budismo espalhado por sacerdotes que, contrariando as ordens oficiais, abandonavam os templos para ensinar ao povo comum. Talvez um dos mais conhecidos desses seja Gyoji (668-749) da escola Hosso. Muitos dos monges das montanhas também possuíam algum tipo de vínculo com a população, o que alimentava lendas sobre poderes paranormais, de realizar curas mágicas, profecias, etc., e desses tais monges podemos destacar En-no-Gyoja, que viveu entre o século VII ou VIII, não se sabe ao certo. Apenas o corpo de lendas que cresceu ao redor de sua figura pelos séculos seguintes dá conta de como tais personagens eram vistos pelo imaginário popular. Profundamente associados com o Budismo Esotérico, sofriam oposição do estado que os considerava uma afronta ao sistema burocrático central que regulava rigidamente as ordenações monásticas. Esses movimentos independentes, contudo, cresciam no Budismo do período Nara e continuaram a se desenvolver ao longo de séculos seguintes.

continua...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Budismo Esotérico (Mikkyo) - Parte 5

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Parte 5 - A Chegada do Budismo Esotérico na China e seus Patriarcas
por Marcelo Prati (Renji)

Ao fazer o caminho da Índia ao Ceilão e sudeste asiático o Budismo alcançou a China pelo mar ao sul, mas também atingiu a região através da rota da seda. Porém, chegou junto com as tradições budistas de uma forma geral e não como uma forma separada das outras práticas. Influências de tradições xamanistas locais conferiram popularidade a sutras que usavam termos como encantamentos para prosperidade ou evitar desastres. Tais sutras chegaram à China por volta do século III e somente depois de cinco séculos é que ensinamentos esotéricos genuínos atingiram o país. Em meados da Dinastia T’ang, quando o Taoismo crescia com rituais de clarividência, cura e promessa de imortalidade através da fé no panteão taoista, os elementos dos rituais esotéricos budistas foram bem recebidos, reforçando esse elemento ritualístico no Budismo chinês, embora as pessoas parecessem mais interessadas em habilidades e poderes mágicos do que nas doutrinas budistas especificamente. Além disso, o surgimento de figuras importantes como Kumarajiva (344-413) e Dharmaksema (385-439), ambos tradutores de vários sutras do sânscrito para o chinês, ajudou a disseminar o Budismo pelo país com traduções acuradas que tentavam manter o simbolismo e profundidade da mensagem, embora a popularidade dos textos se desse, talvez principalmente, pelas práticas de encantamentos. Textos continuaram a ser traduzidos, visto que, até o século VII o Budismo esotérico se desenvolvia fortemente na Índia. Até o século VIII na China, muitos sacerdotes trabalhavam em traduções ou viajavam para a Índia em busca de mais textos e estudos.

Shubhakarasimha
Em 716 chega à China Shubhakarasimha (jap. Zenmui; 635-735) trazendo o Dainichi-kyō. Nascido entre a realeza na Índia, aos 13 anos de idade quase se tornou rei, renunciando ao trono e adentrando à classe sacerdotal. Estudando com Dharmagupta em Nalanda foi nomeado mestre e tomando consigo cópias de sutras viajou da Ásia Central até a China, sendo recebido pelo imperador Hsüan Tsung em 716, fundando um templo onde começou a traduzir sutras. Mudou-se para a capital oriental Lo-yang em 724, onde junto com seu discípulo I-hsing (jap. Ichigyō; 683-727) completou a versão chinesa do Dainichi-kyō, um grande comentário sobre a obra e várias outras traduções. I-hsing, por sua vez, estudou as doutrinas do Budismo T’ien-T’ai (jap. Tendai) compreendendo que os vários ensinamentos eram unificados de acordo com o Sutra do Lótus. Além de discípulo de Shubhakarasimha, também estudou com Vajrabodhi (jap. Kongōchi; 671-741), que o iniciou na prática de mantras e mudras. Também estudou matemática, dentre outras ciências, colaborando grandemente para a criação de um novo calendário. Escreveu comentários e registros de ensinos de Shubhakarasimha. Morreu num templo em Ch’an-an recebendo o título de “Grande Mestre na Meditação da Sabedoria” escrito pessoalmente pelo imperador em sua inscrição funerária.

Vajrabodhi nasceu na Índia, embora haja dúvidas sobre o local exato e suas origens familiares. Estudou os
Vajrabodhi
ensinamentos Mahayana e as doutrinas do Kongochō-gyō com Nagabodhi por sete anos. Diz a lenda que inspirado pelo bodhisattva Kannon, viajou rumo à China, fazendo uma dura viagem pelo mar que durou três anos, passando pelo Ceilão e chegando em Lo-yang por volta de 720. Enquanto ele, sob o patronado imperial, traduzia textos da linhagem do Kongōchō-gyō, Shubhakarasimha se dedicava a introduzir o Dainichi-kyō na China. Ambos sutras foram fundamentais para o desenvolvimento do Budismo esotérico Chinês e japonês. Embora essa transmissão tenha ocorrido simbolicamente, os dois provavelmente nunca se encontraram. Vajrabodhi se preparava para voltar para a Índia quando adoeceu e morreu em Lo-yang. Seu principal discípulo foi Amoghavajra (jap. Fukū; 705-774). Nascido na Ásia Central, filho de um Brahmin do norte da Índia, perdeu o pai ainda criança e foi levado para a China por sua mãe, chegando lá em 714. Anos depois, tornando-se discípulo de Vajrabodhi estudou a linhagem do Kongōchō-gyō. Voltou para Ch’ang-na com quinhentos volumes de textos em sânscrito em 746. Em 755 numa revolta o Imperador Hsüan Tsung fugiu da capital e um novo imperador, Su Tsung tomou o trono com ajuda de tropas estrangeiras. A paz foi restaurada somente em 763 pelo imperador seguinte, Tai Tsung, mas a dinastia T’ang nunca se recuperaria desse golpe.

Amoghavajra teve um templo construído no monte Wut’ai, dedicado a Monju, o bodhisattva da sabedoria e espalhou as práticas de Monju pela China. Quando morreu em 774, o imperador suspendeu as atividades da corte por três dias de luto. Serviu a três imperadores da dinastia T’ang, traduziu um número incerto de textos, ele próprio listou 77, embora algo como 172 sejam atribuídos a ele, dentre os quais, alguns de sua própria composição. É reconhecido junto com Kumarajiva, Paramartha (jap. Shintai) e Hsüan-tsang como um dos quatro grandes tradutores budistas. Deixou vários discípulos, dentre eles o mais jovem e mais importante, Hui-kuo (jap. Keika; 746-805), o sétimo patriarca Shingon.

Hui-kuo
Hui-kuo adentrou à ordem monástica aos 9 anos no Templo Ch’ing-lung (jap. Shōryū-ji) em Ch’ang-an, tornando-se discípulo de Amoghavajra aos 17. Foi iniciado nos ensinos esotéricos certa de três anos mais tarde nas práticas tanto do Mandala Kongō-kai através de Amoghavajra quanto no Mandala Taizō-kai por um discípulo superior. Sua reputação de rituais bem sucedidos se espalhou e muitos vinham de outros países para estudar. É a ele que é creditada a união dos elementos do Budismo esotérico chinês num sistema coerente, embora na China o Mikkyo nunca tenha sido considerado algo separado, uma vertente independente, como acontece mais tarde no Japão. No quinto mês de 805 EC, aos 70 anos de idade, doente e perto da morte, Hui-kuo conheceu Kūkai. Na época, apenas um monge japonês desconhecido que estava em Ch’ang-an para estudar. No espaço de apenas três meses, ensinando a ele as práticas dos dois mandalas, proclamou Kūkai seu último discípulo e sucessor. No décimo segundo mês daquele mesmo ano Hui-kuo morreu sendo sepultado ao lado do pagode de Amoghavajra, fora de Ch’ang-an.

Depois da morte de Hui-kuo, o Budismo esotérico perdeu gradativamente a influência na corte, sendo substituído pelo Taoismo. O Mikkyo desse período mudava também sua ênfase da filosofia da liberação para o mero ritualismo visando bênçãos, boa sorte, saúde, etc. Caindo no gosto popular, textos contendo rituais voltados para esses propósitos eram escritos e atribuídos aos patriarcas antecessores. Ao mesmo tempo, muitas instituições budistas e sacerdotes tornavam-se extremamente ricos e corruptos. O estado, atento com os templos isentos de impostos e influenciado pelos taoistas, reagiu.

Assim, em 841, sob a mão do Imperador Wu Tsung, começou uma perseguição ao Budismo onde sacerdotes eram forçados a retornar ao estado de leigos, templos e instituições eram destruídas e confiscadas, rituais budistas foram proibidos. O Budismo foi salvo da total destruição pela morte do imperador em 845, e mesmo com o seguinte, Hsüan Tsung, tendo políticas favoráveis, o Budismo nunca se recuperou totalmente. Ainda enfrentou outra perseguição de 955 a 959 sob a dinastia Chou tardia, teve um crescimento na dinastia Sung do norte (969-1126).

Em 971 o imperador Sung T’ai Tsu ordenou a impressão de uma edição completa de sutras budistas que foi completada em 983, foi um período de retomada de comunicação com a Ásia Central e Índia, quando novos textos budistas ainda chegaram à China. Os últimos esforços ainda aconteceram até o século X e XI, contudo não resultaram num reavivamento duradouro do Budismo esotérico, que persistiu no norte da China, mas infelizmente, apenas através do apelo de seu aspecto mágico misturado com crenças populares. Por fim, a ascensão mongol no século XIII reforçou a tradição tibetana e foi a forma de Budismo que restou na China e continuou a existir até a modernidade.

Continua...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Budismo Esotérico (Mikkyo) - Parte 4

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Desenvolvimento Tardio e Declínio na Índia
por Marcelo Prati (Renji)

Até a entrada do século VIII o Budismo continuava a se desenvolver e prosperar no sul da Índia. Ao noroeste, contudo, onde os Rajputs cresciam em poder, isso não acontecia. Ao sudeste a dinastia Pallava – que apoiava o Budismo – foi tomada pela dinastia Chola que eram adoradores de Shiva. O Budismo mudou-se para Orissa, na Índia oriental onde contavam com o apoio do Rei Indrabhūti, autor de muitos textos, patriarca da tradição esotérica tardia e pai do grande sacerdote Padmasambhava.


Ruínas da Universidade Budista de Vikramasila, Índia
No começo do século VIII, cada vez mais áreas da Índia tombavam sob a ameaça muçulmana que avançava destruindo todo traço de religiões não-islâmicas por onde passava. As tradições budistas esotéricas, mesmo ainda apoiadas por algumas dinastias, ainda se desenvolvendo a exemplo do grande centro de estudos de Vikramasilā, fundado por Dharmapāla, o segundo rei da dinastia Pāla, que reinou no século IX, foi construído na forma de um mandala, um diagrama cósmico que representava o próprio universo. Sua total destruição pelos muçulmanos em 1203 é tida como o marco do fim do Budismo esotérico na Índia.

Num último esforço, ainda no século VIII, Padmasambhava viaja até o Tibete, e diz a lenda que ele subjugou os deuses e demônios tibetanos para mostrar a superioridade do Budismo. Assim os primeiros sacerdotes tibetanos foram ordenados e as traduções dos textos começaram, sendo aceitas pelos governantes. Contudo, a miscelânea com muitos elementos da religião xamanista nativa (tib. Bon-po) tornaram o Budismo tibetano inicial uma mera religião servente da corte.

O Budismo Ortodoxo foi suprimido até a metade do século IX, fazendo com que os sacerdotes fugissem para regiões mais orientais do Tibete. De lá, um grupo de 21 monges foi enviado para estudar na Índia e um dos dois que retornaram era Rin-chen bzan-po (958-1055), que iniciou um novo ciclo de traduções dos sutras budistas. Sem as restrições impostas pela corte, o Budismo Tibetano trouxe novos ensinos esotéricos da Índia, contando com uma sucessão de mestres que incluíam Atisa, um mestre do centro de estudos de Vikramasilā. Esse tipo de Budismo, que acabou por fim assumindo características bem particulares, é também chamado de Vajrayāna.

Stupa de Borobudur, Java.
O Budismo esotérico indiano partindo de Vikramasilā ainda atingiu o Ceilão, de onde foi levado para Sumatra e Java, local onde foi construída a grande stupa de Borobudur. É dito também que no início do século XI, Atisa passou vários anos estudando em Java antes de ir para o Tibete. Apesar disso, o Budismo em Java foi suprimido e declinou depois do século XIII com o avanço do Islamismo.

Ainda no século XI, enquanto os muçulmanos continuavam a expandir seu território, tomando todo o norte, templos hinduístas e budistas eram destruídos e ainda assim textos riquíssimos como o Kalacakra Tantra foram escritos, onde todas as vertentes hinduístas eram convidadas a se unir ao Budismo esotérico contra a ameaça islâmica. Nesse texto também se desenrolam conceitos esotéricos complexos sobre o “Buda Primordial” (sct. Adhibuddha), a fonte, a origem de todos os Budas.

No século XIII os muçulmanos alcançaram o leste do Tibete onde assassinaram milhares de budistas, destruíram templos e queimaram sutras. Os sobreviventes fugiram para outras regiões do Tibete, Nepal, sul da Índia e Java. Era o fim do Budismo indiano. Apenas uma combinação medíocre de Budismo e Hinduísmo com algo de Islamismo sobreviveu como religião popular em Bengala e Orissa.

continua...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Budismo Esotérico (Mikkyo) - Parte 3

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por Marcelo Prati (Renji)

4. O Período Médio

Depois de usufruir dos benefícios do comércio até o fim do século V sobre a vasta área que ia do Mediterrâneo até a China ocidental, a dinastia Gupta, iniciada pelo Rei Chandragupta I, começa a ruir com a queda do Império Romano e o fim de seus tratados econômicos. Além disso, também foi enfraquecida por invasões estrangeiras como a dos Hunos pelo noroeste da Índia. As escolas de Budismo, outrora patrocinadas pela corte e pela classe mercante perderam seu apoio e com as dificuldades econômicas, medo generalizado e a pobreza que aumentava, a crença em práticas mágicas e orações sobrenaturais volta a crescer, tornando o Bramanismo e o Hinduísmo cada vez mais populares.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Budismo Esotérico (Mikkyo) - Parte 1 (atualizado em 02/12/2013)

O termo Mikkyō pode ser traduzido como ensino secreto, ou Budismo secreto e refere-se a parte das práticas do Budismo T’ien-t’ai (ou Tiantai), introduzidas no Japão por Saichō, também conhecido como Dengyō Daishi no século IX. Contemporâneo de Kūkai (ou Kobō Daishi), que por sua vez desenvolveu a tradição Shingon. É uma síntese de doutrinas, filosofias, rituais e técnicas de meditação que, combinadas com o pensamento Mahayana formam um todo coerente e não um "tipo de Budismo" separado. A essa convergência dá-se também o nome de Budismo esotérico.

O uso do prefixo eso visa se opor a exo, justamente devido a determinados sutras (textos contendo ensinamentos) possuírem dois focos de análise. Um superficial (exo, ou externo) de acesso direto e outro sutil, oculto (eso, ou interno), que apenas deve ser introduzido após a compreensão aprofundada e clara, depois da prática bem estabelecida de doutrinas e seus desdobramentos. Entenda que não existe "conhecimento esotérico" sem uma sólida base exotérica que o sustente. O risco de realizar tal tarefa sem preparo, por conta própria ou na ausência de um mestre que tenha realmente internalizado, compreendido, completado o entendimento das doutrinas implica na possibilidade de creditar às práticas e rituais o caráter mágico, sobrenatural ou “divino” das experiências. As práticas esotéricas não conferem poderes mágicos de cura, de viajar pelo espaço ou de trazer boa sorte. Qualquer leigo que tenha lido meia dúzia de sutras sabe que o Budismo condena veementemente tais práticas como sendo vazias de significado e de lógica. No Sutra do Lótus consta, “... o Bodhisattva (...) não serve, não honra, não reverencia (...) os que conhecem os lokayatamantra (...) nem com eles estabelece relações.” (cap. XIII) Lokayatamantra, algo como “mantras mundanos”, ilustra exatamente a ideia de que através de preces, algum tipo de benefício seria obtido, como boa sorte, saúde ou riquezas. Assim, fica claro que no surgimento de termos que venham a sugerir esse tipo de ideia, mantenha em mente que os textos fazem uso de uma linguagem altamente poética e simbólica para descrever sua mensagem, algo que era comum nos textos antigos já que a ideia de narrativa histórica fatual é posterior.

O mantra, outro termo extremamente prostituído nos últimos dois séculos, é de importância central para o Budismo esotérico e também relevante ao pensamento Mahayana de uma forma geral. Mantras são um grupo de palavras, única palavra ou letra que é associada diretamente a um ou vários ensinamentos ou ideias. Ou seja, uma palavra ou som que é ligado a determinado estado mental ou tipo de insight. Sendo assim, fora da compreensão do seu significado ou do tipo de experiência relacionada, recitar uma frase qualquer, seja Namu Myōhō Renge Kyō, Hare Krishna, Ave Maria ou Shimbalaiê, dá no mesmo. As palavras não possuem significado intrínseco, são desprovidas de essência, mas isso é outro assunto...

Na tradição esotérica japonesa os principais sutras são o Dainichi-kyō e o Kongōchō-gyō, escritos provavelmente na primeira metade do século VII na Índia e contêm talvez a primeira representação organizada das doutrinas e práticas utilizadas no Mikkyō. Esses sutras representam o período médio do desenvolvimento do Budismo esotérico. Contudo, há uma diferença importante entre a tradição T’ien-t’ai (jap. Tendai) e a Shingon. Para o esoterismo Tendai, todas as práticas e ensinos devem estar de acordo com o Sutra do Lótus e o Sutra Mahayana do Nirvana, num sistema lógico chamado em japonês de taimitsu considerando as práticas esotéricas não como uma necessidade ou obrigação, sendo adequada para uns e inadequada para outros. No caso da tradição Shingon, os ensinos esotéricos são considerados um tipo separado (e superior) de Budismo e os sistema de classificação chamado de tōmitsu, considera os dois sutras esotéricos acima citados como superiores a todos os sutras existentes e de acordo com os ensinamentos de Kūkai, o Sutra Avatamsaka também é superior aos sutras Lótus e Nirvana. Além disso, para a tradição Tendai ainda há um terceiro sutra esotérico principal, o Susiddhikara-Sutra (jap. Soshitsuji-Kyō). Vale considerar que Kūkai classificou o Sutra Avatamsaka como superior para agradar as seitas budistas em Nara, que eram influentes no período.

Outras formas de práticas e doutrinas esotéricas ainda se desenvolveram até o século XIII espalhando-se pela Ásia Central, Ceilão, Mongólia, dentre outros locais, sendo muito importantes para o Budismo Tibetano. Em muitos lugares essas tradições declinaram a ponto de desaparecer completamente como veremos em frente.

2. Da Índia à China

As origens dos rituais esotéricos podem ser traçadas até cerca da metade do terceiro ou segundo milênio AEC. Os povos pré-arianos possuíam práticas de adoração a numerosos deuses, provavelmente contavam com algum tipo de yoga religiosa e determinados tipos de encantamentos e preces às quais atribuíam poderes mágicos para agradar a tais divindades e receber delas favores. Entre 1500 e 1200 AEC, os arianos invadiram a Índia e entre suas práticas e rituais religiosos também estava presente a ideia de encantamentos, orações mágicas em prol do favor de deuses invisíveis ou representados pelas forças da natureza, universo, etc.

Ritual do Fogo realizado no Templo Kongozan Ichijoji, São Paulo
O Rig Veda, a primeira grande obra literária desse povo, seguida de mais três Vedas desenvolvidos nos cinco séculos seguintes mostram que no Bramanismo, sua religião, estava contida as bases do ritual budista esotérico. O ritual do fogo, por exemplo, um tipo de rito milenar encontrado em variações por quase todo o mundo, foi adaptado ao pensamento e propósitos budistas, além da inclusão de várias deidades contidas no Rig Veda ao grupo de divindades e simbologias budistas como Indra (jap. Taishaku-ten), Varuna (Sui-ten), Agni (Ka-ten) e o próprio Buda Universal Dainichi-nyorai (literalmente, Buda Grande Sol ou em sânscrito Mahāvairocana) pode ter-se originado de uma deidade menor presente nos Vedas, um Asura (jap. Ashura) que por sua vez, parece relacionar-se com o deus da luz no Zoroastrismo, Ahura Mazda.

Durante o primeiro milênio AEC, textos produzidos como o Atharva Veda, mostram o desenvolvimento de uma sociedade que dava extrema importância a ritos e encantamentos, em sua maioria voltados para curas, alongar a vida, sucesso nas colheitas, vitória contra inimigos, etc. Essas orações mágicas eram chamadas em sânscrito de mantras, classificando-se nos Vedas em categorias de acordo com seus propósitos. Classificações semelhantes acabaram sendo feitas também posteriormente nos sutras esotéricos budistas.

Com o crescimento e enriquecimento da classe mercante na Índia entre os séculos VI e V AEC, a sensação de necessidade de rituais mágicos declinou, novas filosofias tomaram corpo associando tais ritos com superstição de culturas rurais ou de classes sociais inferiores. Dentre os novos modos de pensar estava o Budismo que considerava tais práticas voltadas para obtenção de benefícios seculares, boa sorte, ou qualquer tipo de vantagem, uma ilusão que deveria ser abandonada, já que eram falsas e a verdadeira meta era a liberação através do esvaziamento do eu. Ou seja, desde seus primórdios, o pensamento budista nega claramente a obtenção de bênçãos, benefícios ou como queiram chamar, através de rituais, rezas ou qualquer outra prática dita mágica, mística ou sobrenatural.

Com a expansão indiana sob a mão do Imperador budista Ashoka por volta do século III AEC, o contato com novas culturas trouxe e levou influências do pensamento budista que também atravessou a Pérsia alcançando o Mediterrâneo. Pode-se notar evidências dessa troca tomando como exemplo o texto “Perguntas do Rei Milinda” (Milinda Panha), na verdade Menandro, um rei grego. Desses contatos e desse fervilhar filosófico desabrocha o que conhecemos hoje como Budismo Mahayana que posteriormente alcança a China na dinastia Han (25-220 EC).

continua....